Crônica: a bodega da minha infância

Como um tempo bonito de chuva, um pé na terra, manga colhida e saboreada à sombra e uma passagem pela bodega podem nos fazer tão bem?

Italo Borges

Por Italo Borges
Especial para o Sabores da Cidade

Confesso que há uns bons e longos anos eu não me sentia tão conectado com o sertão, com minha ancestralidade, com a beleza singular de nossa caatinga. Em recente viagem ao Bom Jesus (Canindé), fui tomado por uma nostalgia de pertencimento, mesmo sem ter lá nascido. Saber que meu avô materno, Raimundo Andrade (In Memoriam) lavrou aquela terra, tirou dali o sustento da família que me deu origem é algo que também emula este escrito.

Entre olhares emocionados, a curiosidade pelo lugar me faz observar com atenção a forma como as vilas, povoados e distritos do nosso sertão se organizam: um grande terreiro central, algumas casas contíguas, outras um tanto afastadas, a igreja, centro comunitário ou algo que o valha e a bodega, armazém ou mercearia, como na pequenina Taperoá da Obra Prima de Suassuna. De todas essas edificações a que mais me apetece é a bodega mesmo, talvez porque tenha crescido ouvindo o chamado: “ei, menino, corre ali na bodega!”. Em especial, quando estava lá no Bom Jesus, as idas à Bodega do Tio Oscar eram de pura alegria, um verdadeiro mundo encantado cheio de aromas, sabores e umas pitadas de mistério, pelo menos para uma mente efusiva de menino malino.

Mas como um modesto estabelecimento comercial pode ser esse caleidoscópio sinestésico? Explico: a ida à Bodega não era somente um simples “mandado”, desses que os adultos determinam para as crianças. Envolvia a travessia de boa parte do lugarejo, quase que como uma aventura pra um menininho de 5 ou 6 anos. Na maioria das vezes, o sol era causticante e eu ia, sempre acompanhado de uma de minhas primas Kariny, Karisia ou Kamille, sim sim todas com K. Tia Fafá gosta dessa letra. A mais nova viria depois, Karla. Ao chegarmos lá, o alívio de uma sombra e temperatura amena eram um alento e quando o trajeto era noturno, o breu do caminho só se rompia com a chama das lamparinas. Mas, a diversão maior, para mim, era observar uma miscelânea de rótulos, produtos expostos, enlatados, rapaduras e bolachas. Na “bagunça organizada” do Tio, ainda tinha aquela bomboniére giratória antiga de vidro e tampas de alumínio. Vocês devem saber qual é. Um menino que girou um artefato desses, com certeza, não esquece. São lembranças realmente encantadoras.

Contudo, nem tudo ali na Bodega era destinado a mim e minha primas, havia um aroma que hoje posso identificar como o dulçor olfativo da aguardente de cana que era servida aos fregueses, o tabaco daquele fumo de rolo que parecia uma corda sobre o balcão, já a contraposição do sacro ao profano ficava por conta do Padim Padre Cicero e São Jorge no alto da prateleira completando essa ornamentação.

Ah… mas os bombons e demais guloseimas (pro cearense bombom é a bala pro resto do Brasil) esses nos eram tentadores e muito bem vindos: Pipper, 7 Belo, Maluquinha, Soft, Pirulito do zorro, chocolate do fofão, guarda-chuvinhas de chocolate, caramelos Embaré. Rapaz, era muita coisa pra gente provar. Imaginem crianças observando esse universo! E, tem mais. O melhor mesmo era algo bem mais tradicional, um “Tijolinho” totalmente artesanal preparado pelo próprio Tio Oscar: coco ralado, calda de açúcar e muita habilidade com o fogão à lenha pra se chegar ao ponto perfeito dessa cocada raiz, sem o tal “leite enlatado da moça”. Posso garantir que provar essa iguaria à beira do fogão e ainda quente era um privilégio.

Essa instituição chamada Bodega vende de um tudo nesses vilarejos sertanejos do arroz e feijão à granel ao prego e parafuso. Faço votos que a cultura desses pequenos comércios populares permaneça e retomem até nos grandes centros urbanos, como tenho percebido acontecer com algumas bodegas urbanas especializadas em produtos sertanejos, que desenvolvem um excelente trabalho aqui em Fortaleza e colaboram difundido produtos artesanais e mantendo viva essa cultura alimentar também nos grandes centros.

E você, andou em alguma bodega? Comenta aqui! Até a próxima!

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