Chef Neto Marinho: da cozinha do pai pescador ao comando do Espaço Gourmet Tia Amélia, em Juazeiro do Norte


Foto: Arquivo pessoal

De pai para filho, assim foi passado o gosto pela cozinha para o pequeno Francisco Neto, que viria a ser chef. Natural de Campos Belos, distrito pertencente ao município de Caridade, o filho do pescador Dionizio Rosa aprendeu a estimar a boa qualidade e o frescor dos ingredientes acompanhando o que seu pai fazia na cozinha de casa.

Ainda na infância, Neto passou a ajudar na produção de doces, cocada e doce de leite, que eram a segunda fonte de renda de sua família. Foi colocando a mão na massa, mesmo que por necessidade, que ele descobriu que gostava de cozinhar.

Na juventude, em busca de novas oportunidades, ele seguiu os rumos de São Paulo e lá conseguiu um emprego em uma indústria química. Nesse momento, mais uma vezes os doces passaram a ser uma forma de ganhar um dinheiro extra, mas a partir desse ponto, Neto percebeu que sua vocação era mesmo a gastronomia.

Suas experiências o levavam para isso. Antes mesmo de chegar na Região Sudeste, em terras paulistanas, ele serviu ao Exército, no refeitório dos oficiais, onde acumulou aprendizados que vieram a somar na sua formação de saberes culinários.

Em 1995, o chef começou a dar passos mais precisos e iniciou os estudos na área no Hotel-Escola Senac de Águas de São Pedro (SP). O curso era coordenado pelo chef francês Laurent Suaudeau, que logo convidou o cearense para a equipe de seu restaurante. Neto ainda não sabia naquele momento, mas aquela oportunidade abriria portas para que ele se aventurasse e aprendesse também na Europa.

De lá para cá, muitos foram os aprendizados e percalços que o trouxeram a este novo momento de sua trajetória, agora como empreender. Em Juazeiro do Norte, Neto aposta no Espaço Gourmet Tia Amélia, um empreendimento que nasce da raiz sertaneja, como identidade e releitura da comida regional.

Conheça mais sobre a trajetória do chef Neto Marinho abaixo.

Sabores da Cidade: Neto, conta como começou o seu gosto pela cozinha. É algo que veio da infância e da família? Quem foram as primeiras pessoas a te apresentar a boa comida?

Francisco Neto: Através do meu pai que cozinhava em alguns momentos por conta do trabalho de pescador. A segunda renda da família era a fabricação de doces, comecei a fazer aos oito anos e, por meio da fabricação, descobri que gostava de cozinhar. Meu pai foi o meu primeiro mentor gastronômico. Foi ele quem educou meu paladar e me apresentou o que é, de fato, uma boa comida.

Quando resolveu entrar de vez na gastronomia? E por onde começou a trilhar esse caminho?

Aos 19 anos, enquanto trabalhava em uma indústria química de São Paulo, comecei a vender doces como segunda renda, foi ali, equilibrando essas duas rotinas, que tive a clareza de que minha verdadeira vocação era a gastronomia.

Em 1995 comecei a fazer Gastronomia no Hotel-Escola SENAC de Águas de São Pedro (SP), um curso coordenado pelo chef francês Laurent Suaudeau. Na visita técnica, recebi um convite para fazer parte da sua equipe no restaurante que leva seu próprio nome, Laurent, e após um período curto neste local, surgiu a oportunidade de ir trabalhar na Europa.

Isso me possibilitou conhecer outros chefs e, dessa forma, trocar conhecimentos que foram de suma importância para minha carreira.

Você passou uma época na Europa aprimorando suas técnicas, certo? O que mais destaca dessa experiência e como ela agregou no seu lado chef?

Sim, o contato com a diversidade de técnicas, desde a precisão da cozinha francesa até o frescor da mediterrânea, e outras, ampliaram significativamente o meu repertório. Essa bagagem transformou minha visão e hoje agrega valor à minha forma de trabalho, permitindo que eu consiga criar e inovar com muito mais segurança e versatilidade.

O seu talento foi reconhecido em 2013 no Prêmio Nacional Dólmã. O que essa honraria representa para você e como ela te inspirou a evoluir na sua carreira?

Estar entre os grandes nomes da gastronomia brasileira no Prêmio nacional Dólmã foi uma honra imensurável. Ser reconhecido ao lado de chefs que tanto admiro não foi apenas uma conquista, mas um combustível para que eu continue buscando conhecimento e elevando o padrão do meu trabalho.

No Ceará, você passou pela capital e agora atua em Juazeiro. Por que deixar Fortaleza e apostar em outro lugar? O que te motivou a investir em Juazeiro? Como tem sido sua jornada por lá?

Qualidade de vida foi um dos motivos pelo qual troquei Fortaleza por Juazeiro do Norte, fui convidado a trabalhar em um dos restaurantes mais renomados da região e lá pude exercer com autonomia, usando toda a experiência que adquiri ao passar do tempo, até montar meu próprio restaurante.

Sobre seu processo criativo, o que te inspira na criação de novos pratos? Quais as suas referências?

Encontro na mescla de especiarias a inspiração para desenvolver uma culinária autoral. Meu objetivo é trazer o DNA do Nordeste para a mesa, mas com um olhar renovado. Minha base técnica e maior inspiração vem do chef Laurent Suaudeau, cujos ensinamentos me permitem elevar ingredientes regionais ao nível da alta gastronomia.

Conta sobre o Espaço Gourmet Tia Amélia. Como tem sido guiar a cozinha do espaço e a recepção do público sobre o negócio?

O Espaço Gourmet Tia Amélia representa uma nova etapa na minha carreira, onde assumo o papel de Chef e também a gestão estratégica do negócio. É um desafio equilibrar a criação na cozinha com a operação, mas a resposta do público tem sido extremamente gratificante.

Esse feedback positivo e orgânico que estamos recebendo confirma que estamos no caminho certo para consolidar nossa marca.


Foto: Arquivo pessoal

O Tia Amélia foi inaugurado recentemente, em 2025. Qual tem sido o diferencial do empreendimento na região?

Acredito que a inovação nasce da nossa raiz. Um dos nossos pilares é a releitura de pratos regionais, onde a mesclagem estratégica de condimentos cria novos horizontes de sabor, mantendo sempre o respeito à nossa identidade nordestina.

Na carreira, tem novidades e projetos sendo planejados para 2026? Algo que possa nos adiantar?

Meu foco está na consolidação e expansão do Espaço Gourmet Tia Amélia. Como empreendedor, busco posicionar o restaurante como uma referência gastronômica, ampliando o alcance da nossa marca sem perder a essência autoral e o padrão de excelência que nos trouxe até aqui.

Por fim, quem é o Neto quando não está na cozinha/trabalhando? O que gosta de fazer no tempo livre?

Considero-me um espírito livre. Valorizo meu momentos de repouso em casa para recarregar as energias, mas é no contato direto com a natureza que busco minha maior inspiração. Explorar trilhas e contemplar as belezas regionais me permite desconectar da rotina e descobrir novas nuances que acabo levando para a minha cozinha.

Pitadas de Neto

Foto: Arquivo pessoal

O que não pode faltar na sua cozinha?
Além de insumos frescos, a cozinha precisa ter alma e aquele cheirinho que abraça, se transformando assim em comida de casa.

Qual receita de família é marcante para você? De quem é?
Baião de dois com peixe frito, esse prato feito pelo meu pai me remete a infância, já que ele era pescador e na minha casa era um prato rotineiro.

Uma música para ouvir cozinhando?
Poema na voz de Ney Matogrosso

Livro predileto?
Veronica decide morrer – Paulo Coelho

Para você, quais os sabores que identificam o Ceará?
Apesar da grande diversidade dos frutos do mar, a macaxeira, manteiga da terra, pequi, carne de sol e outros insumos regionais, o que torna a base perfeita para a culinária cearense.

Um lugar em Juazeiro fora da cozinha?
Horto do Padre Cícero, um lugar de forte conexão espiritual e uma vista privilegiada da Chapada do Araripe.

Saiba mais

Espaço Gourmet Tia Amélia
Instagram: @espacotiaamelia

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