
Natural de Salvador (BA), Pérola Sano, mais conhecida como Pérola de Oyá, é fascinada por gastronomia. Desde muito pequena, sua curiosidade pela cozinha foi despertada, especialmente quando acompanhava sua mãe, Bárbara dos Santos, nos terreiros e nas casas onde ela trabalhava como doméstica.
“Eu achava o jeito da minha mãe cozinhar lindo, ficava encantada. Para mim era o melhor tempero do mundo”, ela relembra com carinho.
Ao chegar em Fortaleza, Pérola sentiu a necessidade de ter um espaço para sentir-se representada na cidade. Há 20 anos, com o apoio de amigas que também vieram de Salvador, ela decidiu fundar o Ajeum de Oyá, lugar para fomentar a cultura negra na capital cearense, um epicentro de cultura e gastronomia.
O centro de cultura negra oferece um cardápio amplo da culinária afro-brasileira, incluindo o acarajé, feijoada, caruru e diversos petiscos, além de realizar eventos e atividades diversas.
Mas, embora tenha sido um verdadeiro sucesso, o Ajeum enfrentou difíceis obstáculos. No antigo endereço, onde ocorria ensaios de blocos de maracatu, eventos de jongo, além de crioula de coco, a vizinhança não aceitava com facilidade as manifestações culturais.
Pérola atribui à intolerância religiosa o desagrado dos vizinhos, que inviabilizaram a permanência do espaço. A partir desse ponto, foram três anos sem Ajeum, na busca por se reerguer e encontrar um novo espaço onde pudesse ter sua cultura livre.
No período em que esteve sem o espaço, surgiu a necessidade de colocar o tabuleiro de acarajé na rua, iguaria que ela faz há mais de 35 anos. Assim nasceu o Acarajé da Nega Pérola, que funciona na Praça da Gentilândia, no bairro Benfica.
Mas ela não desiste e, anos depois, a reabertura do Ajeum veio, em um novo espaço, com mais energia e força. “Com meu espaço, eu me senti outra vez pertencente de um lugar. Foi muito lindo”, conta.
Para conhecer melhor a trajetória de Pérola, leia a entrevista completa abaixo.
Sabores da Cidade: Pérola, como começou sua história com a gastronomia? É algo que vem de família e desde a infância?
Pérola de Oyá: Minha história com a gastronomia começou desde muito pequena acompanhando a minha mãe nos terreiros e nas casas onde ela trabalhava como doméstica. Eu achava o jeito da minha mãe cozinhar lindo, ficava encantada. Para mim era o melhor tempero do mundo.
Antes de decidir trabalhar com comida, você pensava em outra profissão ou já teve outros trabalhos diferentes?
Na verdade, os meus trabalhos sempre foram ligado a gastronomia, mas cheguei a me aventurar por outras áreas. Sou auxiliar de enfermagem, já trabalhei como segurança, como doméstica e também sou cabeleireira. Tenho várias outras profissões, mas a gastronomia é o que me fascina.
Como você destaca a sua ancestralidade por meio das suas preparações na cozinha? O que essa culinária ancestral representa para você?
A cozinha para mim é um lugar fascinante, não tem como eu iniciar o preparo de algum prato sem lembrar da minha ancestralidade, sem lembrar da minha avó cozinhando, lembrar do terreiro onde eu fui criada, do povo na função do candomblé, fazendo as comidas dos orixás, a comida para a gente mesmo da casa. A cada prato que eu resolvo fazer, tem toda uma história por trás.
Quando surgiu a ideia de fundar o Ajeum de Oyá? E o que esse espaço representa hoje para a comunidade?
O ajeum de Oyá surgiu da necessidade de eu me sentir representada em Fortaleza. Há 20 anos, quando cheguei por aqui, não tinha muito esses espaços de preto. Graças a Deus, hoje tem um pouco, mas na época eu me sentia muito isolada.
Então juntei com algumas amigas, também de Salvador, e tive essa ideia de montar esse espaço para que eu começasse a reunir os pretos não só de Fortaleza, mas adjacências.
E tem dado certo. Eu percebo que hoje a gente está conseguindo ser um espaço de fomento da cultura negra em Fortaleza, não só na gastronomia, mas de toda uma cultura. Isso, eu acho que é muito importante não só para mim, mas também para a cidade.
Na sua trajetória com o Ajeum de Oyá, quais foram os momentos mais desafiadores de manter o negócio?
O momento mais desafiador para mim foi quando eu vi fechar as portas do Ajeum e tive que ficar mantendo na resistência durante três anos, com o espaço itinerante.
E eu vi todo mundo sentindo falta, todo o povo junto comigo, eu vi que era necessário ter um espaço físico o mais rápido possível e que eu não estava só nessa empreitada.
E quais momentos do Ajeum você guarda como os mais especiais? E por quê?
Nossa, sem dúvida foi a reabertura. Foi muito emocionante, mágico. Eu me senti de volta com meu espaço, me senti outra vez pertencente de um lugar, foi muito lindo.

Além dos temperos tradicionais, quais os toques especiais que você usa na preparação das suas comidas?
O toque especial é o toque da magia, a ancestral. Toda vez que eu estou cozinhando, eu lembro da minha mãe me ensinando algum tempero, eu lembro de alguma tia me ensinando algum tempero, alguém do terreiro.
E o Acarajé da Nega Pérola? Como e quando começou?
Eu sou baiana de acarajé há 35 anos e, quando cheguei em Fortaleza, como tinha muita burocracia para colocar o tabuleiro na rua, eu fui trabalhar como cabeleireira, mas sempre auxiliando o acarajé em alguns eventos.
Quando o Ajeum foi fechado, precisei dar um jeito de colocar o tabuleiro na rua e aí resolvi criar um nome que associasse à casa. Então, comecei a pensar, daí surgiu a ideia de colocar Acarajé da Nega Pérola que, para mim, saiu o trocadilho perfeito, porque acarajé é Ajeum, alimento, e Oyá seria Pérola, porque eu me sinto uma oyá viva. Daí ficou Acarajé da Nega Pérola.
Ao longo desses anos vendendo o acarajé, quais foram as conquistas que vieram por meio dele?
Toda a minha independência financeira, a conquista da retomada do meu espaço. Eu acho que hoje eu não saberia fazer outra coisa senão meu acarajé e a minha culinária. Isso me deixa muito feliz, me faz sentir uma mulher realizada, com autoestima lá no topo.
Por fim, quem é a Pérola quando não está na trabalhando? O que gosta de fazer no tempo livre?
Gosto de costurar, de dançar, tomar uma cervejinha com os amigos, fazer uns artesanatos.
Pitadas de Pérola

Qual receita de família é marcante para você? De quem é?
O vatapá da minha vó. Eu tento fazer igual, mas o dela era perfeito.
Uma música para ouvir cozinhando?
Deixa a vida me levar de Zeca pagodinho.
Livro predileto? Não precisa ser de gastronomia.
Na minha pele, de Lázaro Ramos.
Para você, quais os sabores da cidade de Fortaleza?
Fortaleza é uma cidade de vários sabores, mas uma coisa simples que eu aprendi a comer aqui e que realmente para mim faz toda a diferença, é um baião soltinho com peixe frito. Foi a minha primeira refeição quando coloquei os pés em solo cearense, jamais vou esquecer.
Saiba mais
Ajeum de Oyá
Instagram: @ajeum.deoya
Endereço: Av. da Universidade, 2327 – Benfica
Funcionamento: Quinta-feira a domingo – 18h às 23h
Acarajé da Nega Pérola
Instagram: @acarajedanegaperola
Endereço: Praça da Gentilância – Benfica
Funcionamento: Quarta-feira a sábado – 17h às 21h (Atendem também por delivery)