Uma nova edição das recomendações federais de nutrição dos Estados Unidos, divulgadas na última quarta-feira, 7, apresenta uma pirâmide alimentar que sugere aos americanos a ingestão de mais alimentos integrais e proteínas, uma menor quantidade de alimentos ultraprocessados e também com menos açúcar.
As novas diretrizes mantêm recomendações anteriores e incrementam novas, com base no movimento “Make America Healthy Again”, conhecido como MAHA, do Secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr.
Durante coletiva na Casa Branca, em Whashington D.C., Kennedy disse que sua mensagem clara é: “Comam comida de verdade”. As determinações são para o período de 2025-2030, servindo como base para programas sobre nutrição do governo federal.

A atualização inclui imagens de uma pirâmide invertida que coloca carnes, queijos e vegetais na parte no topo, na parte mais larga, se distanciando do circular My Plate – guia que usava um prato dividido para incentivar o consumo de porções equilibradas de frutas, vegetais, grãos, proteínas e laticínios, elaborado pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) e que substituía a pirâmide alimentar.
As mudanças foram bem recebidas por entidades, mas a quantidade de proteínas sugerida para o consumo diário foi um dos principais pontos que gerou apontamentos.
Em publicação, Dr. Bobby Mukkamal disse que “as diretrizes afirmam que comida é remédio e oferecem direção clara que pacientes e médicos podem usar para melhorar a saúde”, afirmou o presidente da Associação Médica Americana.
Oficiais da American Heart Association (Associação Americana do Coração) pediram mais pesquisas sobre consumo de proteína e as melhores fontes para saúde equilibrada, mas a entidade também elogiou o incentivo ao consumo de vegetais, frutas e grãos integrais.
As orientações moldam as refeições escolares, o programa Women, Infants and Children (WIC) e o Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP). As mudanças surgem em um cenário de elevados índices de obesidade e pré-diabetes na população dos EUA.
A pirâmide enfatiza, conforme o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA):
- Prioriza a proteína em todas as refeições.
- Consumo de laticínios integrais sem adição de açúcares.
- Consumo de frutas e verduras ao longo do dia, priorizando as versões integrais.
- Incorporação de gorduras saudáveis provenientes de alimentos integrais, como carnes, frutos do mar, ovos, nozes, sementes, azeitonas e abacates.
- Prioriza os grãos integrais e reduza drasticamente os carboidratos refinados.
- Limita o consumo de alimentos altamente processados, açúcares adicionados e aditivos artificiais.
- Comer a quantidade adequada para cada pessoa, levando em consideração idade, sexo, tamanho e nível de atividade.
- Escolher água e bebidas sem açúcar para se manter hidratado.
- Limitar o consumo de álcool para uma melhor saúde geral.
Guia alimentar do Brasil
O Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado em 2006, apresentou as primeiras diretrizes alimentares oficiais para a população do Brasil, pensando nas transformações sociais do país e como elas impactam as condições de saúde e nutrição.
O guia completa 20 anos em 2026 e marcou, no seu lançamento, o início de importantes discussões sobre alimentação e políticas públicas, servindo como base para orientação de profissionais da saúde.

Marina Araújo, pesquisadora e diretora do Mercado AlimentaCE, além de chef executiva do restaurante Raiz Cozinha Brasileira, destaca que o guia brasileiro, “diferente de modelos mais engessados, como a lógica da pirâmide alimentar tradicional, propõe escolhas baseadas no modo de comer, e não só nos nutrientes”.
Ela completa: “Isso é contemplar e respeitar o componente essencial da alimentação: a cultura alimentar local. E nesse caso, o chef pode ajudar muito a mostrar isso na prática: no prato, na feira, na cozinha do dia a dia”.
O guia, produzido pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP para o Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS/OMS), o material é referência no Brasil e internacionalmente, com relevância na criação de guias alimentares publicados em outros países, como no Uruguai (2015), Peru (2019) e México (2023).
Marina salienta, ainda, que “a gastronomia brasileira, quando conectada às suas raízes, já nasce alinhada ao Guia. Ele fala de comida de verdade, de preparações culinárias, de comer junto, de respeitar a cultura alimentar, tudo isso sempre fez parte da nossa cozinha”.
“Quando a gastronomia valoriza o alimento in natura ou minimamente processado, os saberes tradicionais, a sazonalidade, o produtor local, ela está colocando o guia em movimento. Cozinhar feijão, refogar legumes, preparar uma comida simples e bem feita é um ato profundamente político e educativo hoje. Pra mim, gastronomia não é só técnica ou estética. É cuidado, é memória, é pertencimento. E o guia brasileiro reconhece exatamente isso: que comer é um ato social, cultural e afetivo, não apenas nutricional”, ressalta a pesquisadores e chef de cozinha.
Em 2014 as diretrizes do guia brasileiros passaram uma reformulação, momento em que foram incorporadas as classificações dos alimentos (in natura, minimamente processados, processados e ultraprocessados).