Sommelière Leiliane Pinheiro: uma jornada marcada pela desmistificação do vinho para mulheres

Yandra Lôbo / Quintal Fotografia

A sommelière Leiliane Pinheiro consolidou sua carreira no mercado de vinhos em Fortaleza ao longo de quase duas décadas. De uma iniciante curiosa a uma profissional de referência, ela começou sua trajetória quando a cidade ainda era carente de formação técnica.

Quando ela iniciou, ainda sentindo-se como um “peixe fora d’água” nesse universo, a busca por conhecimento foi uma forte aliada para a construção da profissional que Leiliane é hoje.

“Quando os primeiros cursos de fato chegaram, fui a primeira da fila. E daquelas de virar noite estudando, fazendo resumo, revendo e relendo tudo”, relembra.

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Sua dedicação não é pensada apenas na sua própria caminhada, mas na de outras mulheres também. A sommelière criou a confrarua Wineladies, um projeto pensado para democratizar o conhecimento sobre vinhos entre as mulheres, sempre em uma atmosfera acolhedora. A iniciativa ganhou força com o apoio de amigas e hoje acumula mais de 1000 participantes que passaram pelos encontros.

Ao Sabores da Cidade, Leiliane conta mais sobre sua caminhada. Além disso, a especialista analisa as particularidades do mercado cearense e a importância de equilibrar a vida executiva com a paixão pelo ensino.

Leia a entrevista completa abaixo.

Sabores da Cidade: Leiliane, como entrou no mundo dos vinhos? Sempre foi um universo que te trazia curiosidade?

Leiliane Pinheiro: Caí de paraquedas no mundo dos vinhos com a missão de promover marcas de uma importadora, zero conhecimento, não fazia a menor ideia do que seria Cabernet Sauvignon, mas ali fui picada por um mundo encantador.

A curiosidade foi aliada. Tive que buscar fontes diversas pois aqui não havia sequer formação, e aos poucos o estudo e a vivência foram moldando. E assim passados quase 18 anos, os cursos chegaram, viagens de trabalho e lazer onde as vinícolas sempre estavam no roteiro, fui conduzida pelas taças de uma maneira deliciosa, e nunca imaginada!

Encontro Wine Ladies (Foto: Arquivo pessoal)

Como foi se tornar, como mulher, uma sommelière? Sentiu que os desafios foram maiores nesse sentido?

A rotina de trabalho, a quantidade de rótulos, e a diversidade deles, me fazia um peixe fora d’água demais. Como disse, não havia formação acessível e nada localmente. Ou você ia para São Paulo em datas de aulas em finais de semana, imagina o custo disso há quase 20 anos. Passagens e hospedagens, fora o valor do curso em si. Ou ia se atualizando com o pouco de acesso em blogs e páginas de revista físicas e livros.

E precisava de fato entender mais, seja para vender, promover ou mesmo para juntar tantas peças de um portfólio que crescia o tempo todo. Estudar com a sensação de que era legal e não obrigada, e o assunto delicioso.

Quando os primeiros cursos de fato chegaram, fui a primeira da fila. E daquelas de virar noite estudando, fazendo resumo, revendo e relendo tudo. Acho que desafios por ser mulher, não. Acho que o vinho já é algo tão complexo de estudo que por si só dá um trabalhão.

Sempre gosto de lembrar que o Marco Ferrari, sommelier e proprietário da Enoteca Ferrari, foi um desbravador em trazer certificações e formações sérias e democráticas para o Ceará. Ele acreditou no mercado e formou um monte de profissional de verdade.

Como foi o processo de se tornar referência no assunto vinhos em Fortaleza? E quais os próximos passos para avançar cada vez mais no mercado?

Adorei o “referência”! Obrigada! Mas nem me considero de fato com vaidade, considero que amo falar fácil sobre vinho, pois acho que resgato a trajetória que eu ficava horas a fio para desmistificar algum país, região, cultivo, e hoje poder simplificar, sem deixar simplista, ou não explicar, é muito bacana!

Deixar acessível um assunto que é, sim, complexo. Os próximos passos dentro do mercado cearense são afunilar de fato experiências muito diferentes ao redor das taças. Percebo que tem muita gente que busca entender mais, conhecer mais, mas o espaço que considero meu realmente é em encontros mais exclusivos e intimistas, como na confraria Wineladies, e dentro do nicho corporativo – tenho uma paixão grande em juntar empresas e vinhos para promovê-los em conjunto e harmonia.

Você deve colecionar muitas experiências sobre o estudo dos vinhos. Quais delas destaca, que foram importantes para construir a profissional que você é hoje?

Gosto de estudar! Isso é algo desde sempre. Na escola era aquela que queria gabaritar tudo e em todo tipo de projeto que me proponho isso, sou dedicada demais. Com o vinho, me vi entre história, geografia, química, que sempre destetei, e gente.

Imagina além da parte teórica, as taças, as conversas, interagir com produtores, gente apaixonada. E tem que ser muito, basta fazer a conta de quanto custa um quilo de uva que a gente compra no supermercado. O cara corta o talo, põe na caixinha e vende, e o outro pega isso, passa meses. Às vezes anos para fazer uma bebida incrível. E temos vinhos de todo preço imaginável. Apaixonante!

Além de curtir ser aluna e dedicada ao estudo, dei aula por um ano e meio numa formação de sommeliers de uma franquia de escola de gastronomia que abriu em Fortaleza. Foi uma experiência imersiva demais! Anotava todo o processo de criação das aulas, onde eu recebia a ementa e tinha que fazer todo o conteúdo do zero.

A formação profissional deles tinha que entregar 52 encontros de 4 horas de aula cada. E pasmem, a média de estudo para eu preparar as aulas estava entre 6 e 8 horas de dedicação. Eu amei. Foi uma pós com MBA em vinho que fiz sozinha.

Quando surgiu a ideia de criar a sua confraria feminina de vinhos, a Wineladies? E por quê?

O ano era 2012, mas comecei a notar a partir disso a necessidade, e os encontros nascem de fato em 2015, 2016. A ideia de promover eventos só para mulheres veio após eu começar a interagir com eventos onde o vinho estava como protagonista, e eu via casais onde o marido participava de um jantar harmonizado por exemplo, e a esposa pedia um drink, um suco, e não por não querer tomar algo, mas por achar que não gostava, porque de fato não entendia.

Encontro Wine Ladies (Foto: Arquivo pessoal)

Queria tirá-la do ambiente formal, e deixar no momento de amigas para ela se soltar, perguntar e apreciar sem o receio de falar besteira, ou de perguntar algo óbvio. Deu certo demais, mas só após duas amigas levarem a ideia para frente chamando as amigas delas e me colocando para tirar do papel o que só planejava e não saia para canto nenhum.

E como funciona a comunidade Wineladies? Qual o seu propósito por meio dela?

Sempre me perguntam “como faz para entrar na confraria Wineladies?”. Acho engraçado, que mesmo tendo toda essa trajetória de tempo, já passaram mais de mil confreiras pelos eventos, ainda assim não entendem que é 100% aberta a qualquer mulher que queira participar de um evento de vinho.

Bacana, sem ser muito formato de aulinha, mas que vai sair mais sabida de vinho do que entrou. O propósito acho que é reunir mulheres que gostam de vinho. Isso por si só já é motivo para sair melhor amiga de todo mundo e promover momentos gastronômicos, interessantes, em que o vinho sempre estará presente!

No âmbito dos seus projetos, algo para tirar do papel em 2026? Quais são as novidades?

Na verdade, algo que deixa as meninas até chateadas, mas os eventos serão cada vez menores e mais pontuais. O foco no canal B2B também toma bastante agenda, e realmente o vinho agrega muito e o negócio evento dá um trabalho maior, onde ainda tenho a carreira executiva na importadora, a mesma que comecei essa história toda. E a sommelière também é mãe e esposa!

Mas antecipo, serão poucos eventos abertos ao público, mas inesquecíveis eventos. E digo mais, para quem já participou de algo na confraria, sabe exatamente do que falo, e sei que a expectativa sempre é muito alta. Amo me desafiar para as confreiras!

Como você avalia o mercado de vinhos em Fortaleza? Está em evolução? E qual o perfil do público consumidor hoje?

O mundo das bebidas em si, nas mais de duas décadas que atuo, é dinâmico demais! Quando temos tendências mundiais, aqui roda outro ritmo, ou de repente, algo que está chegando com força, aqui já acontece naturalmente.

Por estar inserida mercadologicamente numa empresa nacional, vemos que o Ceará é muito fora da curva, tem um mercado ímpar em muitos aspectos. Só para ilustrar, temos um mercado imenso de vinhos de mesa, categorias de entrada, bebidas low price de todo tipo, e de repente recordes em Champagne francês e vinhos da Borgonha, ou grandes rótulos de produtores renomados com preços de quatro dígitos. Um Hi-Lo eterno!

Curiosidade: Para você, quais as principais características de um bom vinho?

Acho que muito em linha com o que vivo na Confraria Wineladies, além de todos os elementos básicos do vinho como produto terem que estar em equilíbrio para ser bom, o vinho tem que combinar com o momento. A ocasião, a companhia, ele tem que estar inserido nisso.

De nada adianta um grande vinho com uma comida sem graça, num ambiente que você não está a vontade, aproveitando algo. Vinho é memória. E de preferência criar boas lembranças com as taças!

Quem é a Leiliane quando não está atuando como profissional? O que gosta de fazer no tempo livre?

A empresa Wineladies atua já no meu “tempo livre”, mas acaba que o vinho fica no “A.M.” e no “P.M.” sempre. O lazer acaba sendo os respiros de descanso, que muitas vezes tem uma tacinha na folga! Tirar um tempo para relaxar, curtir minha família e brindar são a certeza da agenda no tempo livre.

Pitadas de Leiliane

Foto: Reprodução/Redes sociais

O que não pode faltar na sua adega?
Vinho tinto e espumante, e vinho branco, e alguns roses! Essa é difícil!

Uma música para ouvir enquanto aprecia um bom vinho?
O clima do encontro quem diz! Mas música que eu escolho na playlist vai de Joss Stone, Marisa Monte, Alicia Keys, entre outros.

Livro predileto? Não precisa ser de gastronomia.
Paris é uma Festa.

Para você, quais os sabores da cidade de Fortaleza?
Tudo o que o mar traz! Acho que nossa orla faz a gastronomia ter um plano de fundo para chamar de seu! E modéstia à parte, a riqueza de uma peixada até um prato mais sofisticado com nossos frutos do mar sempre fazem bonito.

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