Uma doce missão: confeiteira Patrícia Soares vende bolos há mais de 30 anos em prol dos animais de rua

Foto: Italo Borges

Quem passa na avenida Imperador, no centro de Fortaleza, e se depara com os bolos convidativos de Patrícia Soares não faz ideia, logo de cara, das suas motivações. As fatias ficam ainda mais especiais por um gesto de amor: a confeiteira vende comidas há mais de 30 anos em prol dos animais de rua.

Natural de Alagoas, Patrícia nasceu no interior, em Igaci, e posteriormente viveu na capital, Maceió. Sua relação com a cozinha é uma herança direta de sua mãe, Maria Cícera, que foi cozinheira profissional por 40 anos, e de sua avó, Maria Josefa, uma doceira de mão cheia. Desde pequena Patrícia observava as delícias que eram feitas na cozinha de casa.

O que começou como uma forma de ajudar animais de rua aos 15 anos de idade, vendendo bolos na porta da casa da sua mãe, tornou-se sua profissão de vida. De Maceió para Fortaleza, o endereço mudou, mas a nobre motivação permanece a mesma.

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Hoje ela mantém um abrigo na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), com dezenas de animais sob seus cuidados. Por meio da venda de seus bolos caseiros, tortas doces e salgados, ela conseguiu criar também suas duas filhas.

Leia a entrevista completa abaixo.

Sabores da Cidade: Patrícia, você lembra dos primeiros contatos que teve com a cozinha? Essa relação com de se aventurar na culinária é algo que vem da sua família?

A minha mãe foi cozinheira profissional por 40 anos, a minha avó foi uma doceira a vida toda. Eu cresci vendo a minha mãe, a minha avó no Interior, fazendo as geleias, as compotas. As massas amanteigadas, as geleias, eu aprendi com a minha avó na infância, com oito, dez anos, eu já via minha avó fazendo, já ajudava.

Com quinze anos eu comecei a vender os bolos na porta da casa da minha mãe no intuito de ajudar os animais. Eu comprava mercadoria, o que sobrava eu comprava de comida, para fazer comida para os animais.

Por que decidiu vender bolos? Era a sua especialidade desde cedo?

Eu sou cozinheira e confeiteira há 34 anos. Não só bolos, eu faço pastel, coxinha, empadão, pães e bolos caseiros, tortas doces e salgadas, lasanhas. E é a minha profissão desde os 15 anos. Nunca trabalhei com outra coisa a não ser a culinária.

Foto: Italo Borges

Nas horas vagas costuro, sou costureira também e trabalho com costura criativa, para uma renda extra para os animais. Então, para sustentar os meus animais e a minha família.

Hoje a venda de bolos é quem sustenta a sua família?

Eu criei as minhas filhas, uma tem 31 anos e a outra faz 27 agora em abril, vendendo as minhas coisas. São 21 anos na calçada da minha casa e a gente trabalhou em eventos no Dragão do Mar, na Beira Mar, sempre com os bolos, os pastéis, cachorros-quentes.

A gente ficou muitos anos trabalhando na Praça do Ferreira, no carro. E é herança de família, eu tenho mais duas irmãs, uma é doceira, trabalha com pudins, doces e geleias, e a outro minha irmão também trabalha com bolos, também com confeitaria.

Foto: Italo Borges

Por que você começou a lutar pelos animais de rua? Lembra qual foi o seu primeiro resgate?

O meu primeiro resgate foi aqui em Fortaleza, há 14 anos. Foi uma gata lá no Parque Adahil Barreto, muito marcante. Jogaram ela prenha, com os olhos furados, e eu trouxe ela para casa. Ela pariu, ficou cega e ficou comigo por longos cinco anos.

E meu primeiro resgate de cachorro foi também no parque Adahil Barreto, o Jack, que morreu aos 11 anos. Ele viveu comigo durante 11 anos, ele foi meu primeiro resgate de cachorro. Até então eu só pegava os animais, levava para a clínica, para castrar e depois devolviam para a rua.

Então, meu primeiro resgate foi o Jack. Vira lata, porte grande, Ceará, cego de um olho. Resgatei ele com menos de um mês de vida, com o olhinho pendurado. E depois a gatinha, né? E essa gata se chamava Luz, porque ela não tinha os olhos.

E de lá pra cá eu comecei a resgatar e chegou um tempo que eu estava com mais de 15 cachorros aqui na minha casa, e aí foi quando eu comprei o terreno. Mesmo com todas as dificuldades que eu enfrento todos os dias, eu sou feliz, porque eu salvo eles e eles me salvam todos os dias.

Conta um pouco sobre o abrigo: como ele começou, quantos animais acolhe e quais são os maiores desafios?

Começou em 2018, eu comprei o terreno com recursos próprios. Ainda pago o terreno, faltam três anos para quitar. E eu comecei a construir por meio de uma campanha de R$ 5. Ajuda para comprar cimento, tijolo. E metade da construção foi através do meu trabalho. Eu juntando e construí o muro, os canis, com a ajuda de algumas pessoas.

Os maiores desafios são manter os animais que eu tirei das ruas, de fundo de quintais, do sofrimento, de maus tratos, é mantê-los. Não é fácil, é uma luta diária.

Animais doentes, com sequelas de cinomose, medrosos, idosos, com problemas sarna dermo. Os desafios diários, né? De ter como alimentá-los, medicá-los, como pagar as contas do abrigo mensalmente, sem ajuda. Esse é um desafio diário.

O que te motiva a continuar, mesmo nos momentos mais difíceis, tanto na confeitaria quanto na causa animal?

Mesmo doente, com as minhas limitações, tendinite severa, dificuldade para trabalhar, mas o que me me motiva, me fortalece e me mantém de pé são os animais, é continuar por eles e pela minha família.

Mas o que me mantém de pé, firme e forte, é saber que tem muitos animais lá no abrigo que dependem e precisam de mim. E os que esperam por mim todas as noites.

Olhando para a sua trajetória até aqui, do que você mais se orgulha e quais sonhos ainda quer realizar?

Eu me orgulho de ter entrando no Parque Adahil Barreto e ter castrado todas as gatas de lá e ter conseguido adoção para todos os gatos que viviam lá há anos. Eu me orgulho de ter castrado muitas cadelas e gatas do Centro, e da minha história com a causa animal e como confeiteira, porque através do meu trabalho eu alimento, cuido e mantenho quase 100 animais no abrigo (emocionada).

Sonho em fazer a parte de cima do abrigo pros meus idosos e finalizar a construção da frente aqui, fazer a minha lojinha. São dois sonhos que eu vou realizar através do meu trabalho.

Quem é você quando não está trabalhando? Como gosta de passar seu tempo livre?

O meu tempo livre que eu não tenho (risos)… Eu tiro para o abrigo, para alimentar os animais próximos ao abrigo. No meu tempo livre à noite eu alimento os animais de rua no Centro após as 22h da noite, quando eu fecho a lanchonete.

Aos sábados eu costuro depois que eu termino as encomendas.

Como as pessoas podem apoiar o seu trabalho com a causa animal?

Pode seguir o Instagram Lar dos Anjos (@lar_dosanjos) e ajudar com ração, produtos de limpeza, medicamentos. Ração para gato, para cachorro. Caminhas pet, lençol, toalhas, vassouras, rodos, pá, sacos de lixo, que a gente sempre precisa no abrigo. Adição, né?

Voluntários, que a gente não tem. Eu nunca tive voluntários por ser um local mais afastado, é próximo de Pacatuba. Eu só tenho o César. A única voluntária sou eu, nos domingos. Não é fácil. Já são 34 anos na causa animal, desde os meus 15.

Saiba mais

Patrícia Soares – Doces e Salgados
Instagram: @patricia.docesesalgados
Endereço: Av. Imperador, 1469 – Centro
Funcionamento: De Segunda à sexta-feira, das 16h30 às 20h30
Preço: R$ 12

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