Edil Costa e a coragem de se tornar aprendiz em “um mercado completamente diferente”

Chef Edil Costa

Após 30 anos na carreira executiva, Edilberto Costa resolveu apostar na Gastronomia. Ela sempre esteve presente em sua vida, como uma paixão, e logo tornou-se sua nova profissão. Nascido em Mossoró (RN), foi na capital cearense que ele construiu boa parte da sua trajetória pessoal e profissional, e onde fundou o Espaço Edil Costa – um lugar dedicado a quem deseja desbravar a culinária.

Para Edil, essa mudança não foi impulsiva, mas um processo de amadurecimento focado em unir técnica, criatividade e relacionamento humano. À frente do Espaço Gastronomia Edil Costa, já são mais de 4 mil alunos impactados, oferecendo desde cursos para amadores até formações voltadas para o aperfeiçoamento de profissionais.

A transição exigiu a humildade de aceitar a condição de aprendiz em um mercado completamente diferente, após tantos anos em posições de destaque. Edil levou consigo 30 anos de aprendizado em planejamento estratégico e liderança, transformando sua bagagem executiva no alicerce necessário para seus novos passos profissionais.

Multifacetado, o chef também atua como apresentador do programa “Entre Papos e Sabores”. Edil desempenhou, ainda, um papel fundamental na criação da pós-graduação em Gastronomia da conceituada Universidade de Fortaleza (Unifor), onde continua a contribuir com a curadoria e coordenação pedagógica.

Nesta entrevista para o Sabores da Cidade, ele compartilha os desafios da sua trajetória e sua visão sobre a importância de unir disciplina e gestão ao talento culinário. Confira na íntegra a seguir.

Sabores da Cidade: Após 30 anos seguindo uma carreira executiva, qual foi o momento ou acontecimento que fez você decidir mudar completamente de profissão e seguir a gastronomia?

    Edil Costa: A gastronomia sempre esteve presente na minha vida como uma paixão, mas durante muitos anos segui uma carreira executiva. Depois de aproximadamente três décadas nesse universo, percebi que precisava dar espaço a um projeto que tivesse mais conexão com aquilo que realmente me realizava.

    Não foi uma decisão impulsiva, mas um processo de amadurecimento. Chegou um momento em que entendi que poderia transformar minha paixão pela cozinha em uma nova profissão e, principalmente, em uma forma de impactar positivamente outras pessoas. A gastronomia me oferecia essa possibilidade: unir técnica, criatividade, gestão, educação e relacionamento humano.

    Chef Edil Costa

    Quando iniciou sua formação em gastronomia, em 2011, qual foi o maior desafio de recomeçar em uma nova profissão e como você o superou?

      O maior desafio foi aceitar a condição de aprendiz depois de tantos anos ocupando posições executivas e tomando decisões importantes. Recomeçar exige humildade. Eu precisava aprender uma nova linguagem, desenvolver habilidades técnicas e construir credibilidade em um mercado completamente diferente.

      Superei esse desafio com disciplina, dedicação e educação continuada. Procurei estudar, praticar, conhecer profissionais, compreender o mercado e aproveitar toda a experiência que já trazia da vida corporativa. Não comecei do zero: comecei levando comigo 30 anos de aprendizados em liderança, gestão, planejamento e relacionamento com pessoas.

      O que motivou a criação do Espaço Gastronomia Edil Costa e qual propósito você queria cumprir além do ensino da culinária?

        O Espaço Gastronomia Edil Costa nasceu do desejo de criar um ambiente no qual as pessoas não fossem apenas assistir a uma aula, mas viver uma verdadeira experiência gastronômica.

        Desde o início, meu propósito foi democratizar o conhecimento, aproximar as pessoas da boa gastronomia e mostrar que cozinhar pode ser algo acessível, prazeroso e transformador. Queria criar um espaço de convivência, troca e acolhimento, no qual alunos, professores, chefs, empresas e marcas pudessem se encontrar.

        Mais do que ensinar receitas, buscamos desenvolver confiança, técnica e autonomia. A cozinha é também uma ferramenta de conexão entre pessoas, de fortalecimento da autoestima e, para muitos alunos, uma possibilidade concreta de transformação profissional.

        No Espaço Edil Costa, o que você acredita que faz diferença na sua metodologia de ensino e na experiência oferecida aos estudantes? E quais aprendizados da sua trajetória como executivo você aplica no seu negócio?

          Nosso principal diferencial é unir técnica, prática e experiência. O aluno participa efetivamente do processo, cozinha ao lado dos chefs e entende não apenas como executar uma receita, mas também o motivo de cada técnica.

          Temos uma estrutura profissional, equipamentos modernos, ingredientes de qualidade e professores que são referências em suas áreas. Ao mesmo tempo, mantemos um ambiente acolhedor e próximo, no qual o aluno se sente confortável para perguntar, experimentar e até mesmo errar.

          Da carreira executiva, trouxe especialmente o planejamento estratégico, a organização dos processos, a gestão financeira, a liderança de equipes, o cuidado com o atendimento e a preocupação permanente com a qualidade. Procuro administrar o Espaço com profissionalismo, mas sem perder a sensibilidade e o caráter humano que a gastronomia exige.

          Chef Edil Costa

          Qual o tamanho do impacto do Espaço hoje? Quantas pessoas foram formadas e qual o tamanho da equipe? Deseja expandir?

            Ao longo da nossa trajetória, mais de 4 mil alunos já passaram pelas experiências e formações do Espaço Gastronomia Edil Costa. São pessoas com diferentes objetivos: algumas desejam cozinhar melhor para a família, outras buscam aperfeiçoamento técnico e muitas encontram na gastronomia uma nova profissão ou uma oportunidade de empreender.

            Atualmente, considerando o Espaço Gastronomia Edil Costa e a Cibo Gastronomia, temos uma equipe formada por aproximadamente 20 pessoas. Esse crescimento representa não apenas números, mas empregos, oportunidades e uma rede de profissionais que compartilham do mesmo compromisso com qualidade e hospitalidade.

            Desejo continuar expandindo, mas com responsabilidade. Mais do que crescer fisicamente, quero ampliar o alcance da nossa metodologia, fortalecer nossas formações, criar novos projetos e levar nosso conhecimento para um número ainda maior de pessoas.

            A gastronomia está em constante movimento. Como você identifica as demandas do mercado e transforma isso em conhecimento, em uma grade de formação atual e relevante?

              Procuro manter um contato permanente com o mercado. Observo o comportamento dos consumidores, as necessidades dos restaurantes, as tendências da gastronomia, as novas tecnologias, os equipamentos, os ingredientes e, principalmente, as dificuldades enfrentadas pelos profissionais.

              Também escuto muito os nossos alunos, professores, parceiros e empresários do setor. Essa troca nos ajuda a compreender quais competências o mercado realmente está exigindo.

              A partir dessas informações, estruturamos uma grade que preserva as bases clássicas da gastronomia, mas incorpora técnicas contemporâneas, tecnologia, gestão, sustentabilidade, hospitalidade e empreendedorismo. Tendências mudam rapidamente, mas uma formação consistente precisa ensinar o aluno a pensar, adaptar-se e continuar aprendendo.

              A educação é um ponto forte da sua carreira. Como surgiu a oportunidade de criar o curso de pós-graduação em Gastronomia da Unifor e quais inovações você buscou levar para essa formação?

                A oportunidade surgiu a partir da minha trajetória como professor, da experiência prática no mercado e do reconhecimento da necessidade de uma formação mais aprofundada em gastronomia no Ceará.

                O projeto foi construído buscando aproximar o conhecimento acadêmico da realidade profissional. Desde o início, procurei contribuir para uma formação que não se limitasse à execução de receitas, mas que abordasse a gastronomia de maneira ampla: cultura, história, técnica, inovação, gestão, pesquisa, identidade regional e tendências contemporâneas.

                Outro ponto importante foi reunir professores e chefs com experiências diversas e uma atuação efetiva no mercado. A proposta era oferecer aos alunos uma visão plural, conectando os fundamentos clássicos com a gastronomia brasileira e regional. Hoje, continuo contribuindo com a curadoria e a coordenação pedagógica dessa formação, que reúne profissionais reconhecidos e conteúdos que vão do clássico ao contemporâneo. A própria Unifor destaca essa atuação na formação⁠.

                Ao longo da sua trajetória, houve algum aluno, projeto ou experiência que marcou profundamente sua carreira como educador na gastronomia? Por quê?

                  É difícil escolher apenas um aluno ou projeto, porque cada história de transformação tem um significado especial. O que mais me marca é encontrar pessoas que chegaram ao Espaço inseguras, muitas vezes sem acreditar em sua capacidade, e que depois passaram a cozinhar profissionalmente, abriram seus negócios ou encontraram uma nova fonte de renda.

                  Também me emocionam os alunos que não buscavam uma profissão, mas encontraram na cozinha um espaço de convivência, realização pessoal e aproximação com a família.

                  Essas histórias confirmam que ensinar gastronomia vai muito além de transmitir técnicas. É ajudar alguém a descobrir possibilidades que, às vezes, nem a própria pessoa sabia que existiam.

                  Além de chef e professor, também é apresentador. Como concilia todas essas suas versões? E o que mais te encanta em ter um programa culinário?

                    Não enxergo essas atividades como versões separadas. Todas fazem parte do mesmo propósito: compartilhar conhecimento, valorizar a gastronomia e aproximar pessoas.

                    Como chef, desenvolvo e executo. Como professor, organizo o conhecimento e ajudo outras pessoas a aprender. Como empresário, transformo ideias em projetos sustentáveis. E, como apresentador do programa Entre Papos e Sabores, consigo levar a gastronomia e boas histórias para um público ainda maior.

                    O que mais me encanta na televisão é justamente essa possibilidade de encontro. O programa não trata apenas de receitas. Ele reúne pessoas, histórias, cultura, empreendedorismo e sabores. A comida funciona como um ponto de partida para conversas que informam, inspiram e criam identificação com quem está assistindo.

                    Por fim, olhando para a sua trajetória, qual legado você espera deixar para as próximas gerações de cozinheiros e empreendedores?

                      Espero deixar como legado a ideia de que nunca é tarde para recomeçar e construir uma nova trajetória. Eu iniciei minha formação em gastronomia depois de uma longa carreira executiva, e essa mudança mostrou que experiência e sonho podem caminhar juntos.

                      Quero contribuir para a formação de profissionais tecnicamente preparados, mas também éticos, responsáveis, generosos e conscientes de que a gastronomia é feita por pessoas e para pessoas.

                      Desejo que os alunos que passam por nossos projetos aprendam a valorizar os ingredientes, a cultura, os produtores e a identidade da nossa região. E que compreendam que talento é importante, mas precisa caminhar ao lado da disciplina, da gestão, do respeito e da capacidade de continuar aprendendo.

                      Se eu conseguir inspirar pessoas a acreditarem em seu potencial, empreenderem com responsabilidade e usarem a gastronomia como instrumento de transformação, esse será o legado mais importante da minha trajetória.

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