O sabor mediterrâneo assinado pela chef Louise Torres em Sobral

Foto: Manoel Alves

Natural de Sobral, Louise Torres tem um gosto pela cozinha que vem de família. Seu pai, Beto Amaral, ama cozinhar e essa culinária afetiva foi uma das inspirações da chef. Criada em uma fazenda, o sonho de cursar gastronomia veio também como uma maneira de explorar novos locais.

Em 2014, já em Fortaleza, Louise começou a trilhar essa profissão. De lá para cá, em meio aos desafios da pandemia de Covid-19, surgiu a ideia de ter o próprio negócio. Na época, a chef já atuava como professora e realizava eventos de personal chef, além de prestar consultorias. Quando as atividades foram paralisadas, ela começou a vender menus especiais por delivery.

Após juntar um dinheiro com as vendas, Louise investiu no seu aprendizado e foi estudar em São Paulo. Voltando para Sobral, uma coisa já estava certa: o sonho do seu próprio restaurante precisava ser alcançado.

Assim veio o Blu Mediterranée, junto da sua sócia Ana Luiza Rangel, um projeto assinado pelo seu esposo, Arthur Braun, arquiteto responsável. O encontro das sócias ocorreu em uma aula sobre polvo ministrada por Louise. Curiosamente, hoje o molusco é o carro-chefe do restaurante.  Ao lado de sua sócia, a chef consolidou um negócio de sucesso que valoriza a liderança feminina na Região Norte do Ceará.

A culinária mediterrânea sempre foi uma certeza para a chef Louise, mas ela ouviu repetidas vezes que o restaurantes que sonhava em construir não daria certo e que a cidade não acolheria a proposta mais contemporânea. Provando o contrário, a chef ressalta que o empreendimento cresceu quase 60% durante esses últimos quatro anos.

Leia a entrevista completa abaixo.

Louise, como a gastronomia entrou na sua vida? É algo que vem de família? Quando decidiu seguir nessa área?

Desde muito nova eu já sabia que cursaria Gastronomia. Morei em Sobral até os 18 anos e, em 2013, ainda não havia o curso na cidade. Acredito que uma parte de mim também escolheu essa profissão pelo desejo de ganhar o mundo e morar fora, já que vivi boa parte da vida isolada em uma fazenda.

Em 2014, iniciei a graduação em Gastronomia na Unifanor, em Fortaleza. O gosto pela cozinha também vem de família, nada profissional, mas sempre muito afetivo. Meu pai adora cozinhar, principalmente peixes, meus irmãos também sempre foram para a cozinha e a gente aprendeu a se virar desde cedo.

Ter vivido boa parte da vida na fazenda foi fundamental, ali aprendi sobre a origem dos alimentos e sobre a valorização real dos insumos, algo que carrego até hoje na minha cozinha.

Na sua trajetória, olhando para trás, quais foram os maiores desafios até se tornar uma chef e, especialmente, uma empreendedora em Sobral?

Sem dúvida, o maior desafio foi lidar com os olhares tortos por eu ser mulher e relativamente jovem. Nas grandes cozinhas por onde passei em Fortaleza, ambientes majoritariamente masculinos, muitas vezes fui menosprezada e precisei provar minha capacidade o tempo todo.

Quando decidi empreender em Sobral, ouvi repetidas vezes que o tipo de restaurante que eu sonhava construir “não daria certo”, que as pessoas da cidade não pagariam por uma proposta mais contemporânea.

Mas o tempo mostrou o contrário. Ao longo desses quatro anos, crescemos quase 60% e nos consolidamos como um espaço que transformou a forma de enxergar a gastronomia na região.

Foto: Manoel Alves

Na sua culinária, além das técnicas e temperos convencionais, qual é o seu toque especial?

Como boa aluna da escola francesa, eu sempre dou um jeitinho de incluir manteiga. Sou também uma apaixonada por texturas, adoro enaltecê-las, realçar os sabores próprios dos alimentos, sem mascará-los, extraindo ao máximo o que cada insumo tem a oferecer. A minha cozinha sempre tem muito sabor e verdade.

O Blu Mèditerranée é destaque em Sobral. Como e quando surgiu a ideia de investir nesse empreendimento? Qual era o sonho a ser alcançado?

Eu sempre sonhei em ter meu próprio restaurante, mas confesso que não imaginava realizar isso tão jovem. Quando a obra do Blu começou, eu tinha apenas 25 anos, e foi um projeto muito especial também por ter sido assinado pelo meu esposo, Arthur Braun, arquiteto responsável por transformar em espaço físico tudo o que eu idealizava como experiência.

Tudo teve início ainda na pandemia. Na época, eu era professora do Senac, fazia eventos como personal chef e prestava consultorias. De repente, tive todas as atividades paralisadas e, como sempre fui inquieta, comecei a vender menus especiais por delivery, preparados em casa com a ajuda dele.

Trabalhava das 7h às 23h, atendendo clientes, criando pratos, cozinhando, limpando e, muitas vezes, até fazendo as entregas. Toda semana lançava um novo menu temático, com entrada, principal e sobremesa… e foi um verdadeiro sucesso. Poucas horas após o lançamento, tudo esgotava.

Com esse movimento, consegui juntar recursos para realizar outro grande sonho: estudar na Le Cordon Bleu. Morei um período em São Paulo e, quando retornei, a ideia de abrir um negócio já estava muito madura, inclusive com algumas propostas de sociedade.

A culinária mediterrânea sempre foi uma certeza, justamente para fugir do óbvio e não ser “mais do mesmo”. Assim, o sonho foi se concretizando.

Nessa jornada empreendedora, quais foram os maiores desafios? E o que te dá mais orgulho?

Nosso desafio diário é entregar qualidade, seriedade e padrão dentro do que nos propomos a fazer. Levamos o investimento dos nossos clientes muito a sério, para que a experiência seja sempre positiva.

Tenho muito orgulho de sermos um restaurante pensado e liderado por mulheres. Essa é uma bandeira que eu e minha sócia sempre fizemos questão de carregar: a valorização das mulheres no mercado de trabalho e nos espaços de liderança.

Qual o tamanho do Blu hoje em número de colaboradores? E quais os desafios de equilibrar ser chef na cozinha e também participar da gestão do restaurante?

Hoje o Blu conta com 18 colaboradores e 13 deles estão conosco desde o início, acreditando no propósito e crescendo junto com a gente.

Os desafios são muitos, e eu não seria capaz de fazer tudo sozinha. Conto com a minha brilhante sócia, Ana Luzia Rangel, que está à frente da gestão e lidera tudo com maestria, sempre pensando nas melhores estratégias para que o Blu tenha um crescimento exponencial.

Foto: Arquivo pessoal

Inclusive, fui eu quem a convidei para embarcar nessa aventura. Vi nela o que me faltava, uma excelente administradora, com visão financeira e ideais muito parecidos com os meus.

O curioso é que nos conhecemos em uma aula de polvo que dei para ela, e hoje o polvo é o carro-chefe do Blu.

Pensando na criação de novos pratos, como funciona o seu processo criativo e quais são as suas inspirações?

Meu processo criativo nasce das experiências que vivo, dos sabores que encontro pelo mundo e da reflexão sobre como posso acentuar ainda mais cada um deles.

Geralmente, entra no cardápio algo que experimentei em alguma viagem e adapto ao meu estilo de cozinha, sempre fazendo uma boa engenharia de cardápio para equilibrar preparos e aproveitar o insumo ao máximo.

Como tem sido a experiência de comandar uma sala de aula e participar da formação de novos profissionais da gastronomia? O que lecionar representa para você?

Ser professora de gastronomia é algo que sempre imaginei para mim. Lembro de sair da faculdade dizendo que um dia voltaria para dar aula. Tenho um imenso prazer em ensinar outras pessoas a comerem e cozinharem melhor.

Comecei a lecionar em 2019 no Senac e, há três anos, sou professora de Gastronomia da Uninta.
Sempre que saio de uma aula me sinto realizada. Posso ter tido um dia corrido e estressante, mas a sala de aula é o momento de aquietar a mente e sentir que estou transmitindo algo bom para outra pessoa.

Para finalizar, quem é a chef Louise quando não está na cozinha? O que gosta de fazer no tempo livre?

É a mãe do Dom, meu filho, que chegou há um ano para mudar completamente a minha vida e me desacelerar um pouco dessa rotina corrida. Amo viajar, dançar jazz, jogar beach tênis, conhecer novos restaurantes, fazer algo pela primeira vez e, principalmente, viver tempo de qualidade com a minha família.

Pitadas de Louise

O que não pode faltar na sua cozinha?
Manteiga.

Qual receita de família é marcante para você? De quem é?
O peixe à delícia do meu pai.

Uma música para ouvir cozinhando?
Aiming Up – Two Another.

Livro predileto? Não precisa ser de gastronomia.
Mulheres que Correm com os Lobos.

Para você, quais os sabores que identificam o Ceará?

Sabor de brisa salgada misturada com cheiro verde recém-picado. Penso logo num caranguejo na mesa, o pé na areia e o tempo mais lento.

Um lugar em Sobral fora da cozinha?

Praça São João.

Saiba mais

Blu Méditerranée
Instagram: @blumediterranee
Endereço: R. Dr. Monte, 535 – Centro (Sobral)

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