Por Izakeline Ribeiro e Rogeslane Nunes
27 cooperativas cearenses encontraram em editais de compra direta a oportunidade de escoar as produções de 3 mil famílias durante o ano todo, chegando a equipamentos da rede Sesc e Senac no Ceará

Alimentos da agricultura familiar cearense percorrem caminhos que vão muito além do campo e ganham espaço na mesa do trabalhador do comércio, são incorporados na merenda escolar e viram ingredientes protagonistas de pratos sofisticados.
Maria do Carmo, com 59 anos, mãe de três filhos, Renato, Joélia e Joice Fernandes, aprendeu a mexer na terra desde menina. Filha de pais agricultores, Giomar e Francisco Gonzaga dos Santos, ela recebeu deles, especialmente do pai, os saberes para extrair do solo o sustento familiar. Hoje, ela planta no assentamento Santa Bárbara, em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF).
A agricultora viu a demanda por seus produtos crescerem após ingressar no trabalho coletivo da Cooperativa de Produção Agropecuária e Serviços Santa Bárbara (Copasb), do mesmo município, há quase três anos.
“Antes, a gente não tinha onde colocar o produto, não tinha gosto de plantar, porque só plantava para comer. Quando apareceu a cooperativa, hoje tudo que plantamos e colhemos, a gente vende”, detalha Maria do Carmo.
Ela planta no seu terreno jerimum, acerolas, goiaba, banana, manga, limão, além de maxixe, quiabo, feijão e outros alimentos. Na plantação do seu irmão, Francisco José, ela também contribui, com sementes e adubo orgânico, preparado para evitar uso de defensivos agrícolas. Ambos participam da Copasb.

Vendas garantidas o ano todo
Os produtos que integram a cadeia produtiva de agrofamílias cearenses têm encontrado novos espaços de comercialização durante o ano todo, garantindo escoamento do que é cultivado e criado no campo.
Cooperativas do Ceará têm longa história com programas governamentais que absorvem parte do que é produzido, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), iniciativa do Governo Federal que compra direto de quem produz e distribui para pessoas em situação de vulnerabilidade.
São iniciativas que incentivam a produção da agricultura familiar, mas podem não contemplar todo o período do ano, como ocorre no PNAE, em que entregas são pausadas durante as férias escolares.
Uma oportunidade a mais para o escoamento dessas produções de hortifruti e pecuária foi implementada pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Ceará (Fecomércio-CE), por meio do Programa de Compra Direta, que negocia com quem produz e distribui na sua rede de restaurantes-escola, cafeterias e para a merenda das escolas que integram o grupo.
Por meio da parceria, cooperativas têm destino certo para o que é produzido nas 14 macrorregiões do Ceará. O que é cultivado no Estado passou a ser prioridade por meio do programa, evitando que gêneros alimentícios passem por longos deslocamentos até chegarem aos equipamentos ligados ao Serviço Social do Comércio (Sesc-CE) e ao Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac-CE).
Raimundo Nonato Barbosa, presidente da Copasb, é um dos cooperados que vende diretamente para a rede. “A cooperativa costumava trabalhar apenas com os programas governamentais, que funcionavam durante um período, mas nas férias não tinha como a gente escoar a nossa produção porque não tinha aula, né?”, detalha.

Segundo Raimundo Nonato, a partir da venda para o Sesc, sua cooperativa “pode planejar melhor a produção”. Atualmente trabalham na sede da cooperativa cerca de 30 pessoas, e são 142 cooperados com a Copasb envolvidos na produção, entre o cultivo de frutas e a criação de animais. São mais de 80 trabalhadores produzindo nos assentamentos.
“A gente tem onde colocar o nosso produto o ano inteiro. No período de férias escolares é quando o Sesc compra mais. Isso trouxe um aumento na nossa produtividade, um desenvolvimento no campo e com certeza um aumento na renda das famílias que estão produzindo”, avalia.
A Copasb é formada no seu quadro social por quatro assentamentos, todos localizados em Caucaia: Boqueirão/Capim Grosso; Santa Luzia; Lagoa da Serra e Santa Bárbara.
A agricultora Maria do Carmo também cita a alta demanda por seus produtos pela rede Sesc, incluindo o período das férias escolares. “Isso é gratificante, porque a gente sabe que produz e tem para onde ir”, diz.
O que é produzido nesses espaços é levado, por meio da cooperativa, para os centros de distribuição da rede Sesc-Senac. De lá, os produtos chegam às unidades que conectam o produtor ao consumidor. Na rede Sesc, por exemplo, um dos principais clientes dos restaurantes são os trabalhadores do comércio.
Desenvolvimento regional e sustentável
Diretora administrativa do Sesc e Senac, Márlea Nobre explica que, antes do programa, eram realizadas licitações para comprar os insumos alimentícios utilizados na rede, contemplando outros estados também, no entanto as entregas muitas vezes não tinham a qualidade necessária.
“Sempre fazíamos licitação e a gente começou a perceber que ganhavam pessoas de outros estados, do Rio Grande do Norte, da Paraíba, já teve gente que ganhou do Amazonas, do Centro-Oeste, e muitas vezes não entregavam os produtos que a gente pedia ou não entregavam com qualidade”, conta.
Assim, o Programa Compra Direta foi sendo amadurecido. O centro da ideia concebida por gestores do Sistema Fecomércio no Ceará ouvindo os presidentes de cooperativas do Estado conectou pontos-chave: desenvolver a região, comprar do produtor local, evitando o transporte por longas distâncias.

A iniciativa foi implementada em 2023, e tem priorizado a sustentabilidade ambiental e o desenvolvimento regional, injetando dezenas de milhões de reais na economia local por meio de um ecossistema integrado de cooperativas.
O pilar da sustentabilidade é um dos fundamentos. “Vamos adquirir de uma origem que reduz a emissão de gases de efeito estufa. Se eu for comprar uma coisa lá no Sul do Brasil, no Norte ou no Centro-Oeste, esse caminhão que vai chegar aqui vai rodar nas estradas do nosso país todo e vai emitir muito gás de efeito estufa. Então, vamos comprar daqui da região”, explica Marlea Nobre.
No fim de julho de 2023 o programa começou a realizar as aquisições. De lá para cá, o somatório dos valores envolvidos na iniciativa passa de R$ 67 milhões em compras diretas com as cooperativas.
Para 2026, há a projeção de o valor em compras ser muito acima que em 2025, quando o projeto adquiriu quase R$ 23 milhões durante o ano todo. Apenas no primeiro semestre deste ano, essa quantia foi superada. Entre janeiro e agosto de 2026, passou de R$ 24 milhões em compras.
Inicialmente, o programa atuava em parceria com 13 cooperativas. Em três anos, o número cresceu e hoje são 27. Ao todo, três mil famílias estão envolvidas, seja nos assentamentos ou trabalhando nas cooperativas.
O que começa no campo, chega à mesa dos restaurantes Sesc no Ceará e se transforma nas mais de 20 mil refeições diárias, servidas por todo o Estado.
Cardápios sazonais
Para abastecer a rede, os editais de aquisição de gêneros alimentícios pelas cooperativas são bastante amplos, contemplando diversos insumos utilizados diariamente na produção das refeições e lanches do Sesc. São verduras, legumes, ovos, polpas de frutas, alguns laticínios e até carnes.
Andrea Pinheiro, gerente de Nutrição do Sesc-CE, detalha que os cardápios são pensados a partir da sazonalidade desses alimentos, ou seja, o menu oferecido aos trabalhadores do comércio estão sempre em movimento, acompanhando o período do ano em que frutas, legumes e verduras atingem o seu auge de produção natural.

“Existe uma comunicação contínua com os fornecedores credenciados onde flexibilizamos o cardápio aproveitando a sazonalidade dos produtos. Isso permite aproveitar a safra e melhorar a qualidade das refeições”, informa a nutricionista. Após três anos de programa, os produtores e o Sesc estão em uma cooperação balanceada, embora no início “o maior desafio foi adequar a oferta à alta demanda de insumos da rede”, diz Andrea Pinheiro.
No restaurante-escola do Senac-CE, o Mayú, os ingredientes oriundos da agricultura familiar são incorporados aos pratos pela chef Raquel Holanda. “A sazonalidade influencia diretamente tanto a criação dos pratos quanto o planejamento dos cardápios”, conta a chef.
Raquel continua: “Trabalhar com ingredientes da estação favorece o acesso a produtos mais frescos, saborosos e, muitas vezes, com melhor custo de aquisição. Além disso, respeitar o tempo de cada alimento nos permite aproveitá-lo em seu melhor momento de maturação e qualidade”.

No Mayú, essa dinâmica contribui para a renovação dos cardápios e de projetos gastronômicos que são realizados mensalmente, além de incorporar variedade e novas experiências para quem consome.
Embora incorporados nas cozinhas da rede Sesc e Senac, a diretora Márlea Nobre relembra o desafio inicial de “encantar” as equipes de nutrição dos equipamentos “para eles entenderem que, às vezes, aquele tomate que acham a coisa mais linda e que a gente comprava, tinha agrotóxicos. E que agora o meu tomate pode até não ser tão lindo, mas ele é saudável, produzido aqui na nossa terra, cheio de nutrientes e sem agrotóxico”, comenta.
Ingredientes que são a cara do Ceará
A conexão entre os produtores familiares e a Fecomércio-CE tem promovido mais espaço no cardápio para oferecer comidas tradicionais do Estado. A galinha caipira, o carneiro, a rabada e a panelada integram as opções servidas nas unidades do Sesc. “Eles são incorporados no cardápio como pratos regionais”, detalha Andrea.

Alguns insumos para a preparação das comidas nos restaurantes do Sesc também aumentaram a oferta para as cozinhas da rede. “O cardápio utiliza raízes, frutos e tubérculos produzidos no nosso estado que são ricos em nutrientes e fibras como o jerimum, batata doce e macaxeira. Com as cooperativas, a frequência de oferta tem aumentado”, relata a gerente de nutrição.
Quanto ao Mayú, que integra o Senac-CE, Raquel Holanda considera que o contato direto com os produtores também aproxima de alimentos pouco convencionais no mercado, que dificilmente estão nos canais tradicionais de abastecimento. “É o caso da palma forrageira, do mandacaru, do fruto da vinagreira e das folhas de seriguela, entre outros ingredientes que ampliam nosso repertório e nos permitem explorar novas possibilidades gastronômicas a partir da biodiversidade cearense”, completa.
A outra ponta
No restaurante-escola Mayú, a chef Raquel Holanda destaca que além do acesso a produtos “diferenciados”, é construída uma relação próxima com quem produz, “acompanhando as safras e aprendendo sobre as características de cada ingrediente”.
Na sua cozinha, esses ingredientes são parte essencial de preparações, de entradas, passando por pratos principais e incluindo sobremesas. Como exemplo, o Ravioli aberto Mayú feito com massa fresca de espinafre, molho bechamel de coco e ragu de fruta refogada, utiliza diferentes frutas disponíveis, com respeito à sazonalidade e à oferta dos produtores.
Uma opção de prato principal que se insere nessa rede é a Salada de Cupim. Composta por folhas frescas, lascas de cupim assado, cremoso de jerimum, castanhas, laranja curada, maionese de missô e crocante de macaxeira, a preparação reúne ingredientes de diferentes origens e explora contrastes de textura.

Completando a experiência, a sobremesa Refresco no Quintal é composta por sorvete de fruta da época com cachaça, creme de castanha, crocante de cacau e gel de frutas vermelhas. “A proposta valoriza a sazonalidade como ponto de partida para a criação, permitindo adaptar a receita conforme a disponibilidade das frutas”, explica Raquel.
Permanência no campo, com tecnologia e conhecimento
Uma das bases do programa, que vai além da compra direta de mercadorias, é promover capacitações para qualificar os cooperados que integram a rede. Andrea Pinheiro ressalta que ocorrem formações sobre empreendedorismo e boas práticas do setor, em parceria com o sistema Fecomércio.
Em 2024, segundo ano do programa, o Senac-CE qualificou todas as cooperativas por meio de uma formação dividida em três módulos.
No módulo um, os assuntos abordados foram embalagem, armazenamento, transporte, higienização e rotulagem. O segundo discutiu como administrar uma cooperativa. Já a etapa três do curso apresentou conceitos de marketing digital, “para que eles ampliem cada vez mais os clientes”, ressalta a diretora Márlea Nobre.
Ainda nesse pacote de capacitações, a iniciativa mais recente, implantada entre o fim de 2025 e o começo de 2026, foi o curso superior de Tecnologia em Gestão de Cooperativas, da faculdade Senac Ceará, que conta com a participação de alunos que estão entre os cooperados.
Maria do Carmo, agricultora da Coopasb, antes de ingressar no grupo de cooperados, mantinha outro emprego “porque só a roça não dava”. “Hoje a gente não trabalha mais fora. Trabalha e vende para a cooperativa, e entra a grana que a gente ganhava fora, ganhando multiplicado hoje, né?”, relata.
“É algo muito maior”, diz Márlea Nobre
Hoje, o programa de compra direta é “algo muito maior”, avalia Márlea Nobre, diretora administrativa do Sesc e Senac. “É a produção das famílias do nosso estado, que são cooperadas nesse sistema agrofamiliar, em que você tem as suas artesanias, os seus fazeres, seu sabor”.
“Todos os restaurantes do Sesc que têm aquela sobremesa após o almoço, aquele docinho é comprado da agricultura familiar. Todo o suco que tem nos restaurantes do Sesc também. O suco é da polpa comprada da agricultura familiar. Toda a salada, hortifruti”, complementa Márlea Nobre.
Em concordância, a gerente de nutrição, Andrea Pinheiro, destaca que o programa “fomenta o desenvolvimento dessas cooperativas e consequentemente da agricultura familiar”. “Ele reduz as distâncias entre fornecedor e cliente, valoriza os pequenos e médios agricultores e permite que o dinheiro circule e seja reinvestido dentro do nosso estado”, finaliza.
Veja parte do que é plantado por Maria do Carmo:





