Isabela Osterno: maximalismo e autenticidade por trás do Tropicanos e do Boteco do Murici

Isabela Osterno iniciou no ramo gastronômico de forma precoce, com disposição para o trabalho e para os desafios que são característicos da área. Formada em administração, ela iniciou sua carreira aos 17 anos realizando trabalhos temporários, passando por experiências importantes em grandes redes, onde sua desenvoltura no atendimento a levou rapidamente do bar para o salão.

Aos 20 anos, já assumia a gestão de equipes. No Bulls, ele teve a primeira oportunidade de ser sócia e iniciou sua primeira incursão no empreendedorismo durante o período desafiador da pandemia. Após certo período, ela sentiu a necessidade de ter um lugar que tivesse mais a sua cara, foi quando nasceu o Tropicanos “colorido, maximalista, com comida boa e farta”, ela descreve.

Ao lado de seu sócio, Paulo dos Santos, Isabela construiu um refúgio que vai além da gastronomia, focando na experiência de uma comunidade que se identifica com os valores da casa.

O sucesso mais recente de Isabela se concentra nas redes sociais, especialmente no perfil do Boteco do Murici, inaugurado em 2025. O que começou como uma necessidade de marketing para recuperar o fôlego financeiro após momentos difíceis, tornou-se um fenômeno de engajamento.

Isabela protagoniza vídeos autênticos e sem ensaios, onde aparece comendo, bebendo e dialogando de forma descontraída com seu sócio, o que criou uma conexão real e imediata com o público, impulsionando o movimento do restaurante.

Por trás do brilho das telas, Isabela enfrenta a realidade desafiadora de gerir um negócio novo. Como o Murici ainda é considerado “um bebê”, ela se desdobra para dar conta de todos os setores, atuando diretamente no bar, na cozinha, no salão e até no caixa. Essa postura “mão na massa” é uma marca de sua gestão, que prioriza a operação direta para garantir que o estabelecimento caminhe para a sustentabilidade, operando em uma escala de 5×2 para tentar equilibrar a vida da equipe.

Leia a entrevista completa abaixo.

Sabores da Cidade: Isabela, qual a sua formação e como chegou ao posto de sócia de dois restaurantes em Fortaleza?

Isabela Osterno: Sou formada em administração e comecei muito muito nova, com 17 anos, fazendo freela. Depois do primeiro trabalho em uma hamburgueria, fui para o Outback, pois soube que ganhavam bem e eu sou louca por dinheiro. Passei na seleção e fui para o bar, em pouco tempo um cliente oculto mandou uma carta de recomendação e fui para o salão.

Depois de uma proposta para ser gerente muito cedo, eu me assustei e saí, mas pouco tempo depois os lugares em que eu fazia freela me chamaram para assumir a equipe, então aos 20 anos, decidi aceitar e trabalhar o mais próximo de casa possível.

Foi no Bulls, lá entrei como gerente, na pandemia, voltei a ser atendente, fiz pizza, entrega, fiquei no caixa, na cozinha, no chopp, aí quando passou a pandemia, abriram outra casa e me chamaram para ser sócia.

O Bulls foi minha primeira sociedade, depois com o dinheiro que eu ganhava e, claro, por ser de uma família privilegiada, consegui abrir o Tropicanos, sem nunca esquecer que até um dia desses estava na casa dos meus pais sem pagar nada.

Entre tantas possibilidades, por que decidiu empreender no ramo da gastronomia? E quais têm sido os maiores desafios de sustentar essa decisão desde então?

Foi o primeiro lugar onde eu trabalhei, e eu parecia me dar bem, fazia as coisas de maneira fácil. As dificuldades são os impostos, é a insatisfação humana, a falta de recursos, ter uma consciência de classe e tentar dar um salário digno e bom ao mesmo tempo dando qualidade de vida à equipe, as fiscalizações absurdas, a corrupção nos órgãos públicos que existe quando se vai pedir até uma autorização para usar a calçada, enfim.

Quando e como surgiu a ideia de criar o Tropicanos?

Sempre amei a América Latina e nossa cultura, trabalhei cinco anos em um pub todo preto que enaltecia a cultura e pratos norte americanos, quando fiz uma proposta para comprar uma parte e não deu, decidi que iria fazer um lugar no qual eu me identificaria: colorido, maximalista, comida boa e farta, assim como valores democráticos.

Os sócios Isabela e Paulo dos Santos

O Tropicanos ultrapassou os limites de Fortaleza, especialmente com o drink “Tô na fossa”, em 2022. De lá para cá, como a casa tem se reinventado?

Nosso marketing tenta ser muito presente, inovações constantes, tanto na parte de cozinha como de bar, algumas reformas pontuais e decorações sempre são agregadas à casa, mas sabemos que o boom de 2022 é muito difícil, e ainda bem que temos um público que não nos reconhece mais apenas por um drink, mas por uma casa massa.

O Boteco do Murici chegou em 2025. Como foi esse caminho até abrir uma nova casa, com uma outra proposta?

Murici era algo que eu pensei que seria menos trabalhoso, mais direto, em que eu e meu sócio pensávamos que não iríamos precisar mais aparecer.

Foi algo mais por dinheiro mesmo, Tropicanos não conseguia nos pagar para o tanto de trabalho que tínhamos, mas erramos na época, o Tropicanos foi assaltando em um dia que a casa estava cheia de jornalistas, a casa foi exposta em todas as emissoras, ficamos sem dinheiro, com uma imagem de “bar de gay perigoso”, de gente que não se importava com o cliente, por isso não trazia segurança, o que assim, não tinha nada a ver, sabe? Enfim, as obras do Murici estavam no começo e o Tropicanos estava vendendo 1/4 do que vendia.

As obras do Murici também foram roubadas em um Carnaval quando os pedreiros não estavam, então tivemos que comprar tudo de novo, vendi meu carro e voltamos à cozinha e ao bar. Então, quando o Murici finalmente abriu, as pessoas não compraram a ideia de imediato, até aos pouquinhos eu ir aparecendo nas redes sociais, e a excelente comida ir fazendo sucesso, mas assim, sendo bem sincera, se eu soubesse que seria tão absurdamente difícil, eu não teria feito, fiquei com muito medo, fiquei doente, se a gente não tivesse uma equipe não f*da, não teríamos suportado a pressão.

Do que você mais se orgulha na trajetória dos dois negócios? E o que faria diferente, se pudesse?

Ver as conquistas dos meninos, eles comprando moto, alugando casas ou comprando, ver eles trabalhando cinco dias por semana, o que não era possível na nossa época, ver que hoje cuidamos melhor da saúde mental deles e sentir que nosso público se comunica com a gente, porque também são parte da nossa comunidade. Teria sido menos afoita e esperado ter mais dinheiro antes de investir!

As redes sociais do Murici têm bombado. Como é criar os vídeos descontraídos que você protagoniza nas redes do restaurante? Para você, é mais um trabalho a ser feito ou um momento de diversão para as redes?

Olha, ninguém ensaia nada, né? E eu acho ótimo que eu como e bebo o que eu quero, meu sócio é muito engraçado e é praticamente filmar um diálogo entre a gente (risos).

Acho bom, só me cobro muito por às vezes não conseguir estar sempre lá, e dar atenção a quem assiste e quer, o que pra mim é estranho, mas é bom.

De onde vêm as ideias para os conteúdos que você grava para o Murici? Essa é uma forma que você encontrou para se conectar com o público?

Vem da necessidade, precisamos estar no Instagram para ter retorno, muitas pessoas dependem de nós, e preciso pagar minhas contas (risos). É algo fácil, acho que foi um empurrãozinho para tirar a cabeça da lama depois de tanta coisa ruim que aconteceu. Sei lá, o universo, Deus, não custa nada, sabe? Não é difícil, é normal.

Hoje, você fica mais à frente do Tropicanos ou do Murici? Existe essa divisão?

Tropicanos já anda, Murici ainda é um bebê de meses, mas me identifico mais com o Tropicanos, e estamos voltando mais ele. Hoje, é o Murici porque é muito o meu rosto.

Não tem como existir essa divisão ainda, precisamos suprir todas as áreas necessárias, sabe? Não curto esse discurso de que não tem muita gente querendo trabalhar, porque geralmente vem de pessoas que exploram, mas assim, trabalhei e trabalho no setor, pagamos bem, mas é complicado achar gente boa que queira trabalhar, principalmente galera de 20, 21 anos, aí estamos caminhando, dando o primeiro giro de equipe para poder fechar contratações e rodar, ficando mais de fora, sabe?

Murici funciona na escala 5×2 desde que praticamente nasceu. Mas é isso, se não conseguirmos fechamos e mando meu currículo, acho que ainda tem quem queira (em tom de brincadeira).

No Murici, fico no bar, cozinha, salão, parte elétrica, caixa.

Quais são os próximos planos e novidades para o Tropicanos e o Boteco do Murici?

Os planos são melhorar a saúde e não enlouquecer, as novidades são a copa, os arraiás nas duas casas, o aumento de salário dos funcionário e nos manter.

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