O sabor da campanha: as comidas de Fortaleza que entram em cena nas eleições

Em Fortaleza, o período eleitoral não movimenta apenas comícios, bandeiras e santinhos. Ele também muda o cardápio dos candidatos e faz algumas comidas tradicionais ganharem protagonismo nas agendas políticas.

Existe uma espécie de calendário gastronômico das eleições em Fortaleza que não está escrito em lugar nenhum, mas que quem conhece a cidade reconhece rapidamente. Quando a campanha começa a esquentar, certos lugares passam a ser quase paradas obrigatórias. Afinal, comer, conversar e circular por determinados espaços também é uma forma de estar perto da cidade real.

No Mercado São Sebastião, a panelada é uma comida de identidade, fartura e pertencimento. O prato é um dos grandes símbolos gastronômicos do Ceará e faz parte da rotina de quem frequenta o local. Não por acaso, a panelada ganhou até uma dimensão de espetáculo em Fortaleza: em 2023, o mercado foi palco da produção de uma panelada de 617 quilos, reconhecida como a maior do mundo.

E há uma lógica política nisso. Comer panelada é compartilhar um código cultural com quem está do outro lado da mesa. É dizer, sem precisar de discurso: “eu conheço essa cidade, conheço seus sabores e frequento os mesmos lugares que vocês”.

O pastel com caldo de cana do Leão do Sul aparece como um clássico. Localizada na Praça do Ferreira, a pastelaria carrega quase um século de história e transformou essa dupla em uma espécie de patrimônio afetivo do Centro. Em período eleitoral, o pastel tem uma vantagem estratégica: é democrático, rápido e cabe em uma agenda apertada. Dá para comer em pé, conversar, cumprimentar meia dúzia de pessoas e seguir para o próximo compromisso. 

A bola de carne da Zena, reconhecida com Personalidade Gastronômica pelo Sabores da Cidade, em 2018, também merece lugar nesse mapa gastronômico-eleitoral. Servida no tradicional Restaurante da Zena, no Centro, ela representa aquele tipo de comida que não precisa de apresentação sofisticada para conquistar espaço: é conhecida, farta e carregada de memória afetiva. Em tempos de campanha, lugares assim ganham ainda mais importância porque funcionam como pontos de encontro, espaços onde se come, se conversa e, inevitavelmente, se comenta a cidade e seus rumos. A bola de carne, nesse contexto, é quase uma pequena instituição: chega à mesa em porções individuais ou compondo um belo prato feito (PF) sem discurso, mas costuma render muita conversa. 

Também no Centro, o queijo e a paçoca no Raimundo dos Queijos completam esse roteiro. O lugar se tornou referência justamente por essa combinação de produtos da terra, conversa e sociabilidade. Ali, a comida funciona quase como uma extensão da roda de conversa. E talvez seja justamente essa a grande força desses espaços: eles não são apenas lugares para comer. São lugares para ouvir, observar, encontrar conhecidos e entender um pouco melhor o que está acontecendo na cidade.

Não é por acaso que o Raimundo dos Queijos aparece nesse roteiro. Reconhecido como Personalidade Gastronômica pelo Sabores da Cidade, em 2019, e pela Prefeitura como Patrimônio Turístico de Fortaleza em 2020, o endereço da Travessa Crato é daqueles lugares em que gastronomia, memória e política se encontram naturalmente. Desde 1978, o espaço deixou de ser apenas um comércio de produtos regionais para se transformar em ponto de convivência, boemia e encontro de diferentes gerações. Queijo, paçoca, carne de sol e uma cerveja gelada compõem o cenário, mas o ingrediente mais importante é a conversa. E, em ano eleitoral, sabemos que conversa é uma especialidade que nunca sai do cardápio.

O espetinho na calçada entra nessa mesma equação, talvez de maneira ainda mais popular. A comida de rua tem uma característica que a política adora: aproximar. O candidato pode até chegar cercado de assessores, mas, diante do espetinho, todo mundo espera a mesma coisa: carne no ponto, farofa e vinagrete.

O pratinho na praça representa uma dimensão ainda mais interessante da relação entre comida e política em Fortaleza. Tema do livro “O Sabor das ruas de Fortaleza: um pratinho cheio de cultura alimentar”, lançado pela editora UFC em agosto de 2026, está presente no cotidiano da cidade, transformou-se em uma comida de rua com forte identidade local ao reunir vários elementos em um único recipiente: diversidade, mistura, fartura e a promessa de que cabe todo mundo no mesmo prato. 



E até já tem lei. A Lei Estadual nº 19.363, de 4 de julho de 2025, reconheceu o pratinho como “de relevante interesse cultural do Estado do Ceará” e estabelece que o reconhecimento tem, entre seus objetivos, fortalecer, promover e incentivar a difusão e a comercialização do pratinho durante todo o ano, e não apenas no período junino. No âmbito municipal, vereadores apresentaram a indicação nº 1.257/2025, propondo ao Executivo a adoção das providências necessárias para reconhecer o pratinho como patrimônio cultural de natureza material e imaterial de Fortaleza, em razão de sua importância histórica, cultural, gastronômica e social; e o Projeto de Lei Ordinária nº 413/2025, propondo a criação do Festival Gastronômico do Pratinho no município de Fortaleza

Os fortalezenses seguem consumindo suas comidas preferidas do seu cotidiano. O fenômeno deste período é mais interessante: os políticos procuram os lugares onde a cidade já está acontecendo. A gastronomia, nesse sentido, funciona como território político. Quem come na rua, frequenta mercado, senta na calçada ou para no balcão conhece uma Fortaleza diferente daquela dos gabinetes. E, em uma eleição, essa Fortaleza interessa e muito.

A estratégia pode mudar de eleição para eleição. Mas algumas certezas permanecem: haverá pastel no Centro, panelada no mercado, espetinho na calçada, pratinho na praça, bola de carne na Zena  e queijo com paçoca no Raimundo dos Queijos.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Latest articles

Related articles