Nanoempreendedorismo feminino: mais que “fazer bicos”, mulheres criam negócios e geram renda nas suas próprias casas

Mulheres criam pequenos negócios na cozinha de casa, mas acumulam gestão de negócios e economia do cuidado

Foto: Reprodução/Pexels

O nanoempreendedorismo feminino é uma forma de trabalho e geração de renda marcada por pequenos negócios, muitas vezes informais ou de baixa estrutura, conduzidos por mulheres que empreendem, geralmente, a partir de suas próprias casas. A pesquisa inédita do Consulado da Mulher, realizada em parceria com a Vert.se e a Be.Labs, apresenta dados relevantes sobre essa realidade e evidencia o papel central dessas mulheres na economia brasileira.

Um aspecto relevante é a maternidade: 85% das entrevistadas têm filhos. A presença da maternidade na amostra reforça como as responsabilidades de cuidado e a gestão dos negócios andam lado a lado.

Geração sanduíche

Os dados mostram que 61% das entrevistadas têm entre 30 e 49 anos. Desse total, 26,16% estão na faixa entre 30 e 39 anos, enquanto 35% têm entre 40 e 49 anos. E uma a cada três mulheres têm 50 anos ou mais. A faixa etária representa a tal “geração sanduíche”, adultos de meia-idade que dividem suas rotinas entre cuidar de filhos dependentes ou pais idosos.

A pesquisa aponta que o nanoempreendedorismo costuma surgir mais tarde na trajetória profissional dessas mulheres, muitas vezes como uma alternativa diante da dificuldade de conciliar um emprego formal com as demandas do cuidado.

Em Fortaleza, Laís Teixeira (24) iniciou o seu próprio negócio em 2024, a Couple Burguer, a partir da ideia de trabalhar com o que ela gosta, já que desde os seus 11 anos vendia doces e ajudava a mãe, Renata Teixeira, com as vendas de pratinho.

Laís Teixeira

O nanoempreendedorismo representa uma alternativa fundamental para complementar a renda familiar, garantir maior autonomia financeira e sustentar o lar diante das dificuldades do mercado de trabalho formal.

Essas iniciativas incluem atividades como produção de alimentos, venda de cosméticos, artesanato, serviços de beleza, costura e comércio digital, entre outras.

O negócio de Laís, por exemplo, começou com baixo orçamento, mas hoje é a principal fonte de renda família. Ela tem um filho de seis meses e relata que conciliar os o negócio e a maternidade é um desafio: “Eu fico na chapa e montagem dos combos, alguns momentos tenho que parar pois o José chora e precisa de mim. Fora o pré-delivery, é uma rotina que ainda estou tentando me adaptar”. Ela conta com a ajuda do noivo nas operações.

O estudo mostra que o nanoempreendedorismo feminino também está profundamente ligado à chamada economia do cuidado, conceito que engloba as atividades de cuidado com filhos, idosos, familiares e com a manutenção da casa.

Também na capital cearense, Themis Silva (57) fundou o Alimentos da Boa, que iniciou em 2022, quando ela precisou se reposicionar no mercado e a cozinha de casa foi o seu laboratório para experimentar. O principal produto é a farofa e, atualmente, o negócio é parte da renda familiar.

“Aliado à produção das farofas, a gente também também cuida da minha casa(…), que só é possível também porque a gente trabalha em lugares próximos. No caso, a minha cozinha fica no quintal da minha casa”, conta Themis.

O negócio evoluiu e ela expandiu a estrutura de produção e montou uma outra cozinha no quintal de casa para dar conta de demandas maiores. Ela enfatiza que o seu maior ganho com o seu empreendimento, é ter autonomia.

Cenário

A pesquisa foi desenvolvida em duas etapas. A primeira fase, de caráter qualitativo, reuniu 120 mulheres em grupos focais distribuídos por todas as regiões do Brasil.

Na segunda etapa, de natureza quantitativa, um questionário foi aplicado a 371 mulheres de diferentes estados do país. As participantes fazem parte dos programas do Consulado da Mulher, da Engie Brasil Energia e da Be.Labs.

O levantamento também revela que 71% das participantes são mulheres negras, considerando pretas e pardas. Esse dado evidencia como o nanoempreendedorismo está fortemente presente na base da pirâmide socioeconômica brasileira.

Além disso, 53% das mulheres vivem em residências com três ou quatro pessoas. Esse contexto exige uma organização ainda mais intensa das atividades domésticas e do espaço físico da casa, que frequentemente também funciona como local de trabalho e operação do negócio.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Latest articles

Related articles