Chef Rodrigo Holanda: uma jornada marcada pela reinvenção

Chef Rodrigo Holanda (Foto: Arquivo pessoal)

A trajetória do chef Rodrigo Holanda na gastronomia é marcada por memórias afetivas que remetem à sua infância e ao convívio familiar. Ele carrega consigo o legado de sabores únicos, como a cocada de forno de sua avó, Maria Lage Nogueira, o pão de queijo de sua mãe, Suely Holanda, as rabanadas de sua madrinha, Carminha, e os doces de caju de seu pai, Leorne Holanda.

Apesar dessas raízes fortes, sua entrada no mundo culinário ocorreu de forma tardia e despretensiosa, motivada inicialmente pela necessidade de cozinhar para os filhos. O que começou com pratos básicos despertou uma curiosidade crescente sobre técnicas e processos, transformando o ato de cozinhar em uma paixão que logo atraiu amigos e impulsionou novos projetos.

A transição de carreira foi um marco divisor em sua vida, levando-o a trocar a mesa de trabalho como publicitário pela rotina intensa da cozinha. Determinado a seguir esse novo caminho, Rodrigo mergulhou nos estudos. Toda essa dedicação culminou na criação do Cibo Gastronomia, um restaurante idealizado junto à sua esposa e nutricionista, Rafaele, com o propósito de oferecer uma comida de qualidade, transformando o ritmo acelerado das refeições diárias em uma pausa tranquila, com uma ideia de ser uma extensão de sua própria casa.

Com a pandemia, o restaurante enfrentou grandes desafios e, após o segundo lockdown – quando houve restrição de funcionamento de atividades econômicas e comportamentais -, sua operação foi definitivamente encerrada. Mas, agora em 2026, o Cibo renasceu, em outro endereço, sem esquecer suas raízes, mas em uma nova fase.

Ao longo dos anos, entre desafios e superações, Rodrigo consolidou sua marca e hoje também atua na formação de novos profissionais como professor. Confira abaixo a entrevista completa.

Como começou sua relação com a cozinha? A gastronomia já fazia parte da sua vida familiar? O gosto pela cozinha vem da infância?

Desde de criança tenho a lembrança da minha avó com sua cocada de forno, minha mãe e seu delicioso pão de queijo, minha madrinha e suas rabanadas e meu pai com seus doces de caju, mas minha entrada na cozinha aconteceu de forma tardia e despretensiosa, mais por uma necessidade do que efetivamente um desejo de seguir a profissão.

Na verdade, nunca havia pensado ou sequer sonhado que um dia trabalharia, me apaixonaria e viveria disso.

Chef Rodrigo Holanda (Foto: Arquivo pessoal)

Em que momento você decidiu transformar a culinária em profissão? E quais foram os maiores desafios no início da sua carreira como chef?

Comecei cozinhando para meus filhos, comidas bem básicas, mas que eles me pediam muito e com o tempo foi surgindo a curiosidade e o desejo de saber mais preparos, mais técnicas, “o porquê” e “o como” as coisas aconteciam e eram feitas.

Com o tempo comecei a gostar de estar na cozinha, me sentia bem, feliz, daí veio o namoro que virou noivado e casamento, os amigos indo quase todo dia lá em casa bater papo e comer. Disso veio uma ideia na minha cabeça: jantares harmonizados na loja de vinhos de um amigo.

Propus a ele, mas nunca na minha cabeça havia passado a ideia de que eu fosse o cozinheiro, porém depois de muita insistência ele acabou me convencendo e resolvi topar o desafio. A ideia de um jantar por mês acabou virando dois, três, seis, dez e quando vi estava mais dentro da cozinha, me sentindo feliz e realizado, do que efetivamente sentado em uma mesa trabalhando como publicitário.

Com isso, resolvi largar e embarcar de forma efetiva no ramo da gastronomia. Comecei de baixo, aprendendo toda a dinâmica e toda a cadeia produtiva, estudando muito, devorando todo e qualquer tipo de material e conteúdo que me fizesse aprender mais técnicas, preparos, conhecimento sobre gastronomia para tentar compensar a falta de um diploma.

Pensava em gastronomia o dia todo, lia sobre os grandes nomes da gastronomia mundial, dos clássicos aos modernos, fui descobrindo a riqueza desse universo, das fusões, das cozinhas autorias, da força da churrasqueira ao refinamento do fogão e, em pouco tempo, recebi o convite de assumir minha primeira cozinha como chef.

Chef Rodrigo Holanda (Foto: Arquivo pessoal)

O que motivou a criação do Cibo Gastronomia? Qual era o projeto inicial?

O Cibo, na versão que chamo de 1.0, nasceu da minha inquietação de não querer todo dia servir a mesma coisa, de transformar o corrido almoço do dia a dia em uma pausa para que as pessoas pudessem se alimentar de forma tranquila e decente, com produtos de qualidade, preparos de qualidade, atendimento de qualidade.

Sentei com minha esposa Rafaele, que é nutricionista, falei da ideia e de como gostaria que nosso restaurante fosse uma extensão da nossa casa. E, como no início de tudo, fui convencido por uma amigo, dessa vez, foi a minha vez de convencer ela a embarcar comigo nessa jornada e confesso que, para minha surpresa, ela topou mais rápido do que eu imaginava.

Rodrigo e Rafaele (Foto: Arquivo pessoal)

Meses depois, o Cibo abria as portas pela primeira vez, não sabíamos para quem, mas tínhamos a fé inabalável de que o caminho ia se construir ao longo do tempo. No começo passamos por muitos desafios, casa vazia, as pessoas que entravam sempre muito apressadas, mas aos poucos fomos deixando nossa marca, nossa forma de trabalhar sendo conhecida, atraindo mais gente, clientes virando amigos, projetos nascendo, parcerias sendo fechadas.

Mas a pandemia chegou e com ela o primeiro lockdown, fechamos tudo do dia para a noite, funcionários em casa, portas fechadas e a incerteza de quanto tempo aquilo duraria. Dias viraram semanas, semanas viraram meses, até que nos foi concedido o direito de reabrir, mas com muita dificuldade, afinal o Cibo era uma espaço para 18 pessoas no máximo e, com o distanciamento, atendíamos apenas nove.

O tempo foi passando, as restrições foram diminuindo, novos clientes, novos eventos, o Cibo ganhando notoriedade acima do que havíamos imaginado e aí veio o segundo lockdown, foi quando decidimos pelo encerramento da operação de forma definitiva.

Para nossa grata surpresa, anos depois, os caminhos da vida nos levaram a ter a oportunidade de reabrir o novo Cibo, em um formato mais maduro, mais dinâmico, mas seguindo a mesma base da primeira versão, uma gastronomia acessível, porém com técnica precisa, insumos de primeira linha, respeitando cada cliente e amigo que hoje passa por lá.

Como está sendo esse novo momento do restaurante após a reabertura neste ano?

Como todo início, cada dia é um desafio, uma novidade, repleto de surpresas, mas sempre seguindo passo a passo, olhando onde pisamos, alinhados sempre no objetivo de ser uma empresa sólida nos números e no produto que entrega, essa jovem jornada tem sido muito prazerosa e divertida.

Qual é o conceito atual do Cibo e o que o público pode esperar dessa nova fase?

Hoje, o Cibo é uma cafeteria e restaurante e esse formato nos mostrou a adaptabilidade do nosso negócio a qualquer local que venhamos a estar.

Hoje nos encontramos no WSTC, um prédio comercial na avenida Washington Soares, onde atendemos desde o café da manhã, passando pelo o almoço com pratos executivos que vão de R$ 32 a R$ 45 em média, entrando pelo período da tarde com lanches, sanduíches exclusivos, cafés clássicos, gelados, sobremesas, sucos etc.

Trazendo a essência da nossa primeira versão, nosso cardápio muda todos os dias, onde cada dia da semana temos seis opções diferentes de pratos e constantemente estamos trazendo novidades para os nossos clientes.

Como você equilibra o trabalho criativo na cozinha com a gestão do restaurante?

Eis o grande desafio. Apesar de pouco tempo, quatro meses, o dever de casa foi muito bem feito. O Cibo começa de forma muito madura, sabendo o caminho que quer seguir, alinhando de forma muito franca e direta as expectativas com cada fornecedor, controlando custos de forma muito atenta e procurando entender o desejo dos nossos clientes de perto. Eu, pessoalmente, todos os dias saio da cozinha para falar com os clientes e entender a percepção deles dos nossos produtos.

Quais foram os principais aprendizados ao longo da trajetória como chef e empresário?

Foram tantos que fica difícil descrever, mas se posso aqui elencar os principais, seriam: respeitar as pessoas mais experientes independente de seus grau de instrução; escutar todos os feedbacks deixando o ego de lado, pois muitas vezes a solução está fora do nosso campo de visão; entender que o mercado é extremamente dinâmico e exigente; manter o foco no objetivo e se moldar durante o trajeto; e, com certeza, o principal é ter fé acima de tudo e sempre agradecer a Deus por cada dia de trabalho.

Chef Rodrigo Holanda (Foto: Arquivo pessoal)

Como a experiência como professor no Espaço Gastronomia Edil Costa e na pós-graduação da Universidade de Fortaleza impacta sua visão sobre gastronomia?

Ser professor é uma experiência muito enriquecedora, pois temos a oportunidade de ter contato com realidades extremamente diferentes uma das outras, de um cirurgião ou advogado que faz por hobby a um cozinheiro que vem crescendo na profissão e quer obter mais conhecimento.

Realidades diferentes precisam de soluções diferentes e é exatamente essa troca que faz com que consigamos entender melhor o nosso pŕoprio negócio e o mercado com todas peculiaridades.

O que mais te motiva no contato com alunos e na formação de novos profissionais?

A possibilidade de passar para cada aluno a minha paixão pela gastronomia, ver a expressão e a reação deles ao descobrirem novos sabores, texturas, técnicas. A possibilidade de conhecer novas realidades, novas soluções para problemas em comum. Conhecer histórias e pessoas e dividir a minha com eles.

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