
Edneuly Lourenço encontrou na caprinocultura não apenas um sustento, mas uma forma de valorizar o que é produzido no sertão. Natural de Quixeramobim e residente em Quixadá desde os sete anos de idade, ela iniciou junto com o marido, em 2012, a história da Capril Lourenço. O começo foi simples, motivado por um presente: um bodinho.
Para garantir que o animal não ficasse sozinho, Edneuly e seu esposo compraram uma cabra, iniciando uma criação que, durante anos, foi um sonho construído aos poucos. O desejo de viver exclusivamente da propriedade partiu inicialmente de seu marido, mas foi a persistência dele que encorajou Edneuly a deixar seu emprego como vendedora para abraçar a nova profissão de queijeira.
O salto definitivo para a profissionalização ocorreu em 2023, quando ela iniciou a produção de derivados após buscar conhecimento técnico. Edneuly começou a produzir itens como iogurtes, requeijão e o queijo Pérola do Sertão, inspirado no tradicional Boursin francês, que logo se tornou um sucesso de vendas.
Uma parte fundamental na trajetória de Edneuly foi a sua participação no Laboratório de Criação da Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco (EGSIDB). Por meio do programa, a queijeira recebeu apoio técnico e o suporte necessário para garantir a biossegurança e a qualidade dos produtos, além de montar um pequeno laboratório na própria propriedade para profissionalizar seu trabalho. O grande resultado dessa experiência foi o desenvolvimento do queijo Ouro do Sertão, um maturado de 120 dias criado sob a mentoria de Heloísa Collins.
Nesta entrevista, Edneuly compartilha como transformou desafios em inovação e orgulho para o território cearense. Leia na íntegra abaixo.
Sabores da Cidade: Como surgiu a Capril Lourenço? O que motivou você a trabalhar com a criação de cabras e a produção de derivados do leite caprino?
Edneuly Lourenço: A história do Capril Lourenço começou em 2012, de uma forma simples e cheia de carinho. Tudo começou através de um presente de um criador do Capril Leite Forte: um bodinho. Como ele parecia estar sozinho, decidimos comprar uma cabra para fazer companhia a ele. E foi assim que nasceu a nossa criação.
Durante muitos anos, fomos construindo esse sonho aos poucos, até que em 2023 demos um novo passo, foi quando iniciamos a produção de derivados do leite de cabra. Meu esposo sempre acreditou que poderíamos viver da nossa propriedade e insistiu para que eu me dedicasse à produção.
Foi então que busquei conhecimento em um curso, em Quixadá, onde troquei leite por aprendizado. A partir dali comecei a produzir e vender nossos produtos.
Minha primeira experiência com vendas foi na PEC Nordeste, em 2023, e desde então nunca mais parei. Hoje, o Capril Lourenço representa mais do que uma produção, representa persistência, amor pelo sertão, valorização da agricultura familiar e a realização de um sonho construído com muito trabalho
Atualmente, quais produtos fazem parte da Capril Lourenço? Entre eles, quais são os mais procurados pelos consumidores e por quê?
Hoje, o Capril Lourenço produz queijos, iogurtes, requeijão e outros derivados do leite de cabra. Nosso grande destaque é o queijo Pérola do Sertão, um queijo inspirado no tradicional queijo francês Boursin. Pela sua cremosidade, sabor e versatilidade, ele conquistou muitos clientes e se tornou o nosso carro-chefe, sendo um verdadeiro sucesso de vendas.
Mais do que produzir alimentos, o Capril Lourenço carrega uma história de dedicação, amor pelo sertão, valorização da agricultura familiar e a transformação de um sonho em realidade.
Produzir derivados de leite de cabra no sertão exige muita dedicação. Em algum momento você pensou em desistir? O que fez você insistir e seguir em frente?
Produzir queijos e derivados do leite de cabra, não só no sertão, mas em qualquer lugar, é um grande desafio. Ainda existe um certo tabu e muita resistência das pessoas em experimentar algo novo.
O que me fez não desistir e continuar acreditando nesse sonho foi ver tantas pessoas acreditando no meu potencial, além de todo o conhecimento que adquiri ao longo dessa caminhada.
Tive a oportunidade de participar de cursos pelo SENAR e, mais recentemente, pela Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco, conseguimos desenvolver um queijo que eu sonhava há muito tempo.
Ver pessoas acreditando no meu trabalho, na minha história e no meu sonho é o que me dá força para continuar, inovar e mostrar que o leite de cabra tem muito valor e pode transformar vidas.

Como funciona a criação das cabras na propriedade? Quais cuidados são fundamentais para garantir a qualidade do leite utilizado nos produtos?
As nossas cabras são criadas em sistema de semiconfinamento. Durante a noite, elas ficam em instalações adequadas e, durante o dia, são soltas no pasto, onde têm acesso ao ambiente natural.
Mantemos um rigoroso controle sanitário dos animais, com acompanhamento de vacinação, vermifugação e manejo reprodutivo através da monta controlada.
Para garantir um leite de qualidade, seguimos todos os cuidados de higiene, desde a limpeza do ambiente até o processo de ordenha, prezando sempre pelo bem-estar dos animais e pela qualidade dos nossos produtos.
Para você, quais são os principais desafios enfrentados por quem trabalha com caprinocultura e produção artesanal de laticínios no Ceará?
Os derivados de leite de cabra ainda enfrentam uma certa rejeição, muito ligada à falta de informação e à pouca divulgação desses produtos. Muitas pessoas ainda não conhecem a qualidade, os benefícios e as possibilidades que esse alimento oferece.
Hoje, um dos nossos principais desafios é a certificação. Pequenas queijarias que trabalham com uma produção de 20, 50 litros de leite por dia, precisam de uma maior flexibilidade para conseguir se adequar e obter essa certificação. Esse é um dos grandes gargalos que precisamos superar para fortalecer a cadeia produtiva do leite de cabra e ampliar o acesso desses produtos ao mercado.
Como surgiu a oportunidade de participar do Laboratório de Criação da Escola de Gastronomia Social e o que essa experiência representou para você?
Conheci a Escola de Gastronomia Social através de Nadir Chaves, do Projeto São José. Fiz minha inscrição e fui selecionada. Foi uma experiência transformadora. Nunca me senti tão respeitada e valorizada na minha vida. A escola acreditou no meu projeto, apoiou meu potencial e, juntas, conseguimos desenvolver o meu queijo maturado Ouro do Sertão.
Esse resultado representa muito mais que um produto. Representa dedicação, aprendizado e a realização de um sonho construído com apoio e parceria.

Durante o laboratório, você desenvolveu a pesquisa que acompanhou o processo de qualificação da produção de leite e queijo de cabra. Quais foram os principais aprendizados desse trabalho?
Além de realizar o sonho de produzir um queijo maturado, a escola me proporcionou algo que eu nunca tinha feito antes: a análise do meu queijo. Esse cuidado foi muito importante para garantir qualidade e segurança ao produto.
A escola também montou um pequeno laboratório para que eu pudesse realizar as análises do leite, trazendo mais conhecimento, controle e profissionalização para o meu trabalho.
O projeto resultou na criação do queijo maturado Ouro do Sertão. Como foi o processo de desenvolvimento desse produto e quais características dele traduzem o território e os sabores do sertão cearense?
Tudo começou com a busca por uma mentora. O Laboratório de Criação estava tentando encontrar alguém que pudesse me acompanhar nesse processo e, em uma reunião comigo, perguntaram se eu admirava alguém ou se tinha alguma sugestão.
Naquele momento, falei que admirava muito o trabalho do Capril do Bosque, mas achava quase impossível que a Heloísa Collins aceitasse fazer essa mentoria. E não é que o Laboratório de Criação conseguiu o contato, conversou com ela, e ela topou esse desafio?
Inicialmente, começamos com aulas online semanais. Toda semana, ela passava as atividades, eu executava e depois apresentava os resultados. Foi um processo de muito aprendizado, dedicação e construção.
Para chegarmos ao Ouro do Sertão, tive a oportunidade de conhecer e provar vários queijos através de análises sensoriais. Fizemos uma degustação comentada pela Heloísa Collins, com a participação de várias pessoas, que puderam avaliar e dar seus feedbacks sobre os sabores que mais agradavam.
A Heloísa Collins, junto com a doutora Andréa, analisou todos os comentários e, a partir dessas avaliações, chegamos ao nosso queijo tão sonhado: o Ouro do Sertão.
Um queijo maturado de 120 dias, com sabor suave, textura amanteigada e uma identidade que representa o nosso sertão. Um queijo pensado para conquistar o paladar do Ceará e do mundo.
Meu desejo é poder compartilhar esses conhecimentos com outras pessoas e mostrar que é possível, sim, agregar valor ao nosso leite de cabra e transformar uma produção em uma história de qualidade, inovação e orgulho.
Quem faz parte dessa jornada ao seu lado? Como é a participação da família e de outras pessoas na criação dos animais e na produção dos derivados do leite de cabra?

O Capril Lourenço sempre foi um sonho do meu esposo. Foi através desse sonho que começamos nossa criação em 2012.
Em 2022, ele começou a fazer queijo para o nosso consumo e sempre me dizia que eu deveria aprender e começar a trabalhar nessa área, deixando meu emprego de vendedora. Mas eu tinha medo, tinha receio de não dar certo.
Em 2023, mesmo com medo, decidi acreditar nesse sonho e seguir esse caminho. Hoje agradeço muito ao meu esposo por ter insistido tanto, porque foi através da persistência dele que descobri uma nova profissão e hoje sou queijeira.
Atualmente estou sozinha na propriedade. Sou responsável por tudo: tiro o leite, cuido dos animais, cuido da casa, da queijaria, faço o marketing, as vendas e toda a gestão do negócio. Ainda não tenho colaboradores, mas sigo todos os dias construindo essa história com muito amor, dedicação e coragem.
Quando você olha para a sua trajetória, desde os primeiros passos até a criação do Ouro do Sertão e a consolidação da Capril Lourenço, do que sente mais orgulho?
Hoje, quando paro para fazer uma retrospectiva de tudo que Deus fez na minha caminhada, vejo o quanto Ele cuidou de mim e do nosso sonho de viver da caprinocultura e valorizar o nosso leite.
Sinto muito orgulho da minha trajetória. Comecei produzindo queijo coalho, vendendo a R$ 100 o quilo, e hoje consegui chegar a um queijo maturado, com valor agregado de R$ 300 o quilo.
Quem diria que aquilo que parecia impossível se tornaria possível? Hoje sou muito grata a Deus por cada etapa dessa caminhada e também ao Laboratório de Criação da Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco, que acreditou no meu potencial e fez parte dessa transformação.
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Instagram: @caprillourenco