Qual a história do pratinho em Fortaleza?

Iguaria combina tradição e os sabores da comida de rua na cidade; fortemente ligado ao empreendedorismo feminino, o pratinho passou dos festejos juninos e de aniversário para as praças de Fortaleza durante o ano todo

Pratinho da Linda (Foto: Sabores da Cidade)

A comida de rua no Brasil tem particularidades em cada região. Na capital da Terra do Sol, quem anda pelas por Fortaleza encontra espetinhos, pastel e outros quitutes. Entre eles, um chama a atenção por ser a cara da cidade, presente em cada regional, com direito a reconhecimento por lei da sua grandiosidade, embora o nome seja um diminutivo afetuoso: o pratinho.

Das festas juninas e de aniversário para as praças e calçadas, e nos centros comerciais, a iguaria combina o creme de galinha, vatapá de frango, baião de dois ou arroz, além de uma farofinha de carne de sol e calabresa acebolada, tudo junto em uma cumbuca de plástico descartável. É incrementado com salada e outras guarnições a depender do gosto do cliente e da variedade dos vendedores.

Izakeline Ribeiro, jornalista e pesquisadora que estuda o pratinho na capital cearense, destaca a comida como “um dos maiores símbolos da identidade gastronômica de Fortaleza”.

Izakeline Ribeiro

A pesquisadora ressalta que Fortaleza tem muitos ingredientes marcantes, como a panelada, a tapioca e a peixada cearense, “mas o pratinho tem uma característica única: ele nasceu e se consolidou nas ruas da cidade, está presente em todas as regionais e faz parte do cotidiano de milhares de pessoas“.

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O pratinho combina preparações de diversos territórios cearenses. Nele o litoral e o sertão se encontram em único prato. As carnes do sertão, os produtos agrícolas que têm origem na serra, somando com as influências do litoral e outras receitas tão tradicionais, como o baião de dois e paçoca de carne de sol. “Essa combinação mostra que a cultura alimentar do Ceará foi construída por encontros, trocas e adaptações. O pratinho é, de certa forma, um retrato dessa diversidade”, acrescenta Izakeline.

O pratinho como símbolo da comida de rua

Percorrendo Fortaleza à noite, no calçadão da Beira-Mar ou nas praças, as barracas de pratinho marcam presença. Antes, a venda da iguaria se concentrava na época dos festejos juninos, mas a venda e o consumo passaram a fazer parte ano todo. Nas festas de aniversário, ele ganha o posto de um dos protagonistas da comemoração.

Pesquisa desenvolvida no Mestrado em Gastronomia da Universidade Federal do Ceará (UFC) por Izakeline Ribeiro mostra que o pratinho é consumido em todas as regionais de Fortaleza, atravessando diferentes perfis sociais. Assim, sua presença simboliza mais que alimento, é uma referência tanto afetiva quanto cultural para a cidade.

Na Praça da Cidade 2000, Linda Nepomuceno vende a iguaria há pelo menos 16 anos. A empreendedora conta que “o pratinho é muito valorizado e procurado até mesmo por turistas”.

Ela conta que, por lá, o pratinho “é consumido por todo o ano, mas sem dúvida no período junino aumenta a procura”. No seu, o cliente pode encontrar vatapá de camarão e de frango, creme de galinha, escondidinho de carne de sol, strogonoff de carne, calabresa e carne de sol desfiada.

“Ele surgiu como uma forma de complementar a renda de muitas famílias durante as festas juninas e, aos poucos, foi ultrapassando essa sazonalidade. Com o crescimento da cidade, a expansão dos bairros e a busca por refeições rápidas, acessíveis e saborosas, o pratinho passou a ocupar as ruas durante todo o ano. Essa transformação aconteceu de maneira espontânea, impulsionada tanto pelos vendedores quanto pelos consumidores”, explica a pesquisadora.

Izakeline acrescenta que “a população [de Fortaleza] valoriza comidas que remetem à tradição, mas também busca praticidade. O pratinho reúne essas duas características: preserva receitas regionais e, ao mesmo tempo, atende ao ritmo acelerado da vida urbana”.

Pratinho e o empreendedorismo feminino

Um outro aspecto da rede comercial que envolve o pratinho é a sua forte relação com o empreendedorismo feminino. Na paisagem urbana da capital cearense, ele vai além de símbolo gastronômicos, promovendo também sustento para famílias e independência financeira de mulheres.

Linda Nepomuceno, do Pratinho da Linda (Foto: Sabores da Cidade)

Linda Nepomuceno, do Pratinho da Linda, encontra na venda da iguaria o sustento da família. “O pratinho representa reconhecimento e conquista”, diz. Por meio do seu negócio, ela conseguiu investir na formação de filhos minha e ajudar em outros negócios do seu núcleo familiar.

“As mulheres tiveram um papel absolutamente fundamental. Na maioria dos casos registrados na pesquisa, foram elas que iniciaram a produção das comidas dentro das cozinhas de casa, organizaram o trabalho da família e transformaram uma atividade sazonal em um negócio permanente”, enfatiza Izakeline.

A jornalista continuou: “Além da habilidade culinária, elas foram responsáveis pela gestão dos negócios, pelo atendimento aos clientes e pela preservação das receitas transmitidas entre gerações. A história do pratinho também é uma história de empreendedorismo feminino”.

Onde encontrar pratinho em Fortaleza

Fortaleza conta com polos de venda de pratinhos muito conhecidos, como a praça da Cidade 2000 e do Lago Jacarey, além do Calçadão da Beira-Mar. Outros lugares recebem o icônico prato de uma cumbuca só: Parque Raquel de Queiroz, Praça da Gentilândia, Praça do Conjunto Polar etc.

A iguaria é símbolo de festejo em Fortaleza. Desde 2023 o equipamento público Mercado Alimenta CE, localizado na Estação das Artes e vinculado à Secretaria da Cultura do Ceará (Secult), no Centro, realiza o Festival do Pratinho, um evento dedicado à celebração dessa comida, que ganhou espaço o ano todo no gosto dos consumidores.

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Pratinho em Fortaleza: livro, rota gastronômica e prêmio

A iguaria protagoniza iniciativas na cidade. Em 2026, o Sabores da Cidade realizou a primeira rota gastronômica dedicada ao pratinho, começando no Lago Jacarey, seguindo para a Cidade 2000 e encerrando na Beira-Mar, locais que são reconhecidos pela forte tradição na venda desse ícone da comida de rua de Fortaleza.

Pratinho da Linda (Foto: Sabores da Cidade)

Durante o percurso, os participantes conheceram curiosidades sobre a história e a importância cultural do pratinho, tema da pesquisa desenvolvida no mestrado em Gastronomia da UFC, que deu origem ao livro “O Sabor das Ruas de Fortaleza: um pratinho cheio de cultura alimentar”, escrito por Izakeline Ribeiro.

A obra, publicada pela Editora UFC, foi lançada em agosto deste ano. A leva o leitor a percorrer bairros, praças e histórias de vida que mostram como o pratinho deixou de ser uma comida associada apenas às festas juninas e passou a integrar o cotidiano dos fortalezenses. O livro reúne relatos de vendedores, curiosidades sobre a origem e a composição do pratinho, além de mapas da presença dessa iguaria em Fortaleza e reflexões sobre cultura alimentar, patrimônio e comida de rua integram a obra.

Também iniciativa do Sabores do Cidade, o prêmio genuinamente cearense Melhores Sabores da Cidade guarda uma categoria especial para o pratinho, indicando os cinco melhores da Capital após avaliação de jurados. Os indicados são submetidos ao voto popular, que decide o favorito entre os mais bem avaliados.

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Os cinco melhores pratinhos de Fortaleza

O pratinho é cultura viva

O pratinho é cultura viva, que se reinventa. “Ao longo da pesquisa, ficou evidente que ele nunca foi uma tradição estática. Novos ingredientes, apresentações e formas de comercialização surgiram ao longo do tempo, mas sua essência permaneceu a mesma: oferecer uma base de comida regional e caseira, farta, acessível e profundamente ligada à cultura local”, destaca Izakeline Ribeiro.

No Ceará, a iguaria foi reconhecida como de relevante interesse cultural para o Estado por meio da lei n° 19.363, de autoria da deputada Marta Gonçalves e coautoria do também deputado Simão Pedro, que levaram a iniciativa para a Assembleia Legislativa do Estado do Ceará.

“O reconhecimento tem por objetivos fortalecer, promover e incentivar a difusão e a comercialização do pratinho, em âmbito estadual e nacional, não apenas no período junino, mas durante todo o ano”, assegura o texto.

A pesquisadora finaliza: “Os desafios existem, especialmente diante das mudanças nos hábitos de consumo. Mas vejo também um movimento crescente de valorização da gastronomia regional e do patrimônio alimentar. Tenho confiança de que o pratinho continuará ocupando um lugar importante na identidade de Fortaleza, preservando sua essência enquanto acompanha as transformações da cidade”.

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